Carta Pastoral do Arcebispo +Rowan Cantuar

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Carta Pastoral do Arcebispo aos Bispos da Comunhão Anglicana

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Para: Os Bispos da Comunhão Anglicana e das Igrejas Unidas Queridos irmãos e irmãs,

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Em vista da conclusão da Conferência de Lambeth de 2008, quero oferecer algumas reflexões adicionais minhas sobre aquilo que os bispos reunidos em Cantuária aprenderam e vivenciaram.  Os que estiveram aqui poderão partilhar suas próprias reações com seu povo, mas podem ser úteis as minhas perspectivas sobre o lugar aonde fomos conduzidos.

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Parece que, para a grande maioria dos bispos, este foi um momento em que se sentiu que Deus estava operando. A conferência não foi o momento de fazer novas leis ou decisões vinculativas; apesar da maneira como alguns expressaram suas expectativas, as Conferências de Lambeth nunca funcionaram diretamente dessa forma.  O Grupo de Elaboração da Conferência teve a convicção de que a principal necessidade da nossa Comunhão no momento era a reconstrução de relacionamentos – a reconstrução da confiança mútua – e da certeza da nossa identidade anglicana.  Com isso em mente, planejaram uma Conferência bem diferente, com a determinação de permitir que a voz de cada bispo fosse ouvida e de procurar um resultado final que realmente representasse, para os bispos, um relato autêntico de seus próprios trabalhos.

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Acredito que a Conferência obteve bastante sucesso, bem mais do que a maioria das pessoas esperavam.  Ao final do nosso tempo juntos, muita gente, principalmente alguns dos bispos mais recentes, disseram que se surpreenderam com as tantas convergências que viram.  E não há dúvida que o desejo de praticamente todos os presentes era que a Comunhão ficasse unida.

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Mas também reconheceram o desafio de ficar unidos e a possibilidade ainda presente de haver outras divisões. Enquanto as propostas para um Pacto anglicano prosseguem, ainda é possível que alguns não concordem. Houve uma nítida sensação que um pacto apoiará nossa identidade e coesão, embora os bispos queiram evitar um tom legalista ou jurídico.  Uma maioria expressiva dos bispos presentes concordaram que era necessário suspender as bênçãos de uniões entre pessoas do mesmo sexo e as intervenções entre províncias, mas sabiam das dificuldades de aplicação que isto teria para alguns, é preciso haver maior clareza em relação às expectativas exatas e ao que realmente pode ser implementado.  Não sabemos ainda o quanto esta sensação intensa de união incentivará a cautela nas atitudes mútuas.  Mas pode-se dizer que poucos participantes foram embora com a sensação de não terem se mudado em alguns aspectos.  

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Estivemos conscientes da ausência de muitos colegas nossos e queríamos expressar nossa tristeza por se sentirem incapazes de estar conosco e o nosso desejo de construir pontes e de restaurar nossa confraternidade.  Também soubemos da reunião recente em Jerusalém e as declarações dali advindas; muitos de nós manifestamos um claro senso de afinidade com muito daquilo que lá foi dito e ficamos gratos de que muitos tenham assistido às duas reuniões, mas ainda há trabalho por fazer para aproximarmos mais uns aos outros e estamos determinados a fazer esse trabalho.      

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O documento final da Conferência — “Reflexões” — não é um relatório, por assim dizer, no estilo das Conferências anteriores, senão uma tentativa do grupo encarregado de elaborá-lo de apresentar um relato honesto do que foi discutido e expressado nos grupos Indaba, que formaram o principal trabalho em comum da Conferência.  Embora este documento não seja um relatório formal, ele contém algumas indicações sobre as metas e premissas em comum da Comunhão.  Vou mencionar aqui algumas delas:

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Primeiro, houve concordância quase total no sentido de que a Igreja precisa fazer sua parte, de forma plena, na luta mundial contra a pobreza, ignorância, e doença.  Repetidas vezes destacaram-se as Metas de Desenvolvimento do Milênio, e todos concordaram que as entidades tanto governamentais como não-governamentais de fomento ao desenvolvimento precisam criar parcerias mais efetivas com as igrejas e ajudá-las a aumentar a capacidade delas para promover mudanças em prol da justiça. Além disto, concordamos que necessitamos de uma maior valorização das aptidões na Comunhão para trabalhos coordenados nos campos de desenvolvimento. Nossa Caminhada e Testemunho em Londres e o memorável discurso do Primeiro Ministro do Reino Unido, deram grande foco nestes assuntos. E o desafio para cada bispo de identificar metas claras para desenvolver políticas ambientais responsáveis na vida da igreja foram articuladas de maneira bastante convincentes: as informações foram fornecidas para todos sobre como “a impressão de carbono” da própria Conferência poderia ser deixada, e um novo impulso foi dado para um auto exame cuidadoso e crítico de todas as nossas práticas. Fomos lembrados pelos depoimentos em primeira mão que a sobrevivência literal de nossas mais desfavorecidas comunidades corriam riscos como conseqüência das mudanças ambientais. Isto nos possibilitou ver a questão mais claramente, como uma justiça tanto para com a terra de Deus como para o povo de Deus.

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Segundo, quanto à questão polêmica do dia, o respeito à sexualidade humana, havia uma forte convicção que mudanças locais prematuras ou unilaterais eram arriscadas e poderiam causar divisão, apesar da diversidade de opiniões expressadas nesta questão específica. Não havia nenhum desejo de revisar a Resolução 1.10 de Lambeth 1998, mesmo assim havia também um claro compromisso para continuar as discussões teológicas e pastorais das questões envolvidas. Além disto, para um apoio difundido pela moratória nas áreas já mencionadas, havia mais apoio pela idéia de um “Fórum Pastoral” como um recurso de direcionamento de tensões presentes e futuras, e como um centro de processamento de propostas a respeito do cuidado de grupos peculiares com opiniões dominantes voltados para suas Províncias. A função do “Fórum Pastoral” seria, portanto, evitar situações confusas de violação de fronteiras provinciais e conflitos de competências.

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Importante reconhecer que todos estes problemas envolvem  sérias reflexões da natureza humana na doutrina Cristã  e um contínuo e profundo entendimento do casamento Cristão. Uma sessão conjunta com os bispos e esposas também nos lembrou que questões morais amplas sobre poder e violência nas relações entre homens e mulheres precisam de atenção, se vamos falar confiavelmente das tensões e sofrimentos daqueles que servimos.   

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Terceiro, havia um desejo geral de encontrar melhores maneiras de gerenciar nossos interesses como uma Comunhão. Muitos participantes acreditavam que o método indaba, embora não tenha sido planejado para alcançar decisões finais, foi, de certa forma, um instrumento necessário de entendimento das questões em pauta. Mais tarde foi expresso entre os bispos o desejo de ampliação do método para que as conversas iniciadas em Cantuária pudessem continuar. O documento Reflexões servirá como um importante guia para o encontro dos Primazes e ACC que ocorrerá no primeiro semestre do ano que vem, e eu estarei buscando identificar os caminhos que precisaremos seguir a fim de avançar em algumas propostas sobre nossas estruturas e métodos. A Conferência foi ricamente abençoada pela participação e partilha dos participantes, que testemunharam sua compreensão da herança Anglicana, enquanto nos perguntavam sobre quão flexível e criativa são nossas políticas evangelísticas; sobre a integração de nossa paixão social com nossa teologia; e sobre a natureza da unidade que buscamos tanto dentro da Comunhão Anglicana como com outras famílias Cristãs. Muitos de nossos representantes ecumênicos participaram de forma plena em todos os nossos trabalhos e temos para com eles uma considerável dívida.

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Finalmente, e mais importante de tudo, mantivemo-nos dentro de uma atmosfera de constante e profunda oração, proporcionado pelo grupo de Capelania. O compromisso dos membros da Conferência de louvar diariamente era impressionante, e isto tem muito a ver com a qualidade do louvor, tanto em momentos de profundo silêncio como de exuberantes celebrações. Foi de grande importância começar com um período de retiro no contexto da Catedral da Cantuária. As boas vindas que lá recebemos foram de imensa generosidade, e valorizamos a mensagem claramente dada: de que aquela era nossa Catedral, e que todos nós fazemos parte da comunidade de louvor que tem estado aqui desde que Agostinho veio para Cantuária em 597.

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Mais uma vez agradeço a todos os presentes, a todos que planejaram e organizaram a Conferência, àqueles que compuseram os estudos bíblicos, àqueles que planejaram e monitoraram o trabalho dos grupos indaba e a todos os que nos serviram tão devotadamente das mais variadas maneiras – sem esquecer os Stewards, cuja energia juvenil, compromisso e incansável apoio, proporcionaram-nos grande esperança para o futuro. Obrigado a todos vocês – bispos, bispas e cônjuges – que compareceram, demonstrando um grande comprometimento e encorajando uns aos outros. 

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Mas juntos damos graças a Deus por sua presença em nosso meio, sua fidelidade para conosco e suas bênçãos para com nossa Comunhão. Como foi dito no encerramento da sessão plenária, nós acreditamos que Deus tem muito mais bênçãos para derramar sobre toda nossa Comunhão; e pedimos sua graça e auxílio no ensinamento de como receber o que Ele deseja dar. “Ele que dá a semente ao semeador e pão em alimento, multiplicará a semente e fará crescer o fruto da justiça que vocês têm.” (2 Coríntios 9:10)

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Seu servo em Cristo

+Rowan Cantuar