PELA MINÚSCULA FAIXA DE GAZA

marcos-monteiro.JPG

*Marcos Monteiro

Políticas, econômicas, étnicas, religiosas, históricas, o conflito judeus-palestinos pode ter várias razões, mas nenhuma razão, o que expõe o lado mais perverso da pós-modernidade.
A fragmentação da modernidade em minúsculas tem um lado muito positivo, suspiro de alívio de uma história obrigada a se adequar a qualquer razão maiúscula, mas nos convida a novos jogos e construções a que não estamos habituados, como o convívio com a diversidade. Em tempos de guerra, a fractalização da violência remete-nos à fractalização do horror; e os tempos sempre foram de guerra, garante-nos a história. Aliás, a grande vantagem dos novos tempos, é trazer a lume aquilo que se pretendeu sempre esconder: a importância das minúsculas.
Na minúscula faixa de gaza, o povo palestino resiste a uma opressão que se pretende maiúscula, apoiada em maiúsculo aparato militar, garantido por um maiúsculo orçamento. Diante do poderio maiúsculo israelense, os possíveis excessos de facções palestinas, são ridiculamente minúsculos, as minúsculas pedras de Davi contra a maiúscula espada de Golias; somente que Davi e Golias trocaram de lado.
Ironicamente, a palavra que mais se repete é a palavra “holocausto”, evocação da maiúscula tentativa de genocídio perpetrada contra os atuais agressores dos palestinos. Constatamos perplexos aquilo que afirma Bauman: “as vítimas não se tornam éticas por serem vítimas”. Nessa alternância de papéis, são novamente as minúsculas crianças que pagam tributo maiúsculo à maiúscula entidade chamada guerra.
Talvez a maior perversidade da guerra seja exatamente a tentativa de racionalizar o irracional. A guerra é a violência em cálculo, planilhas e processos administrativos sobre quantidade de sangue inocente. Industrializar a morte em escala crescente, estabelecendo a relação custo-benefício, exige domínio técnico-administrativo que somente se consegue cumulativamente, ou seja, apoderando-se das conquistas técnico-científicas e dos recursos administrativos testados pela história.
Diante da guerra, vivemos a impotência inclusive das significações e perdemos os critérios de comparação. Procuramos até hoje motivos para a bomba de Hiroshima, no desejo de perdoar a falência de nossa humanidade. Somos todos culpados ou podemos transferir nossas minúsculas culpas para essa maiúscula guerra? Mas, mesmo pecadores, precisamos resolver o paradoxo dos “Irmãos Karamasov”.
São as minúsculas crianças que denunciam as nossas irracionalidades e a irracionalidade da guerra. “O maiúsculo pecado do mundo não vale uma minúscula lágrima de criança” repeteria Ivan, tão cético e tão lúcido, no clássico romance de Dostoievski. Das lágrimas e sangue das crianças que vão embebendo o chão da faixa de gaza só podemos esperar a colheita de mais lágrimas e mais sangue. A inútil morte das crianças não irá redimir a humanidade. Os minúsculos corpos enterrados por seus familiares são sementes apenas de dor e violência, em maiúsculas e em minúsculas.

Recife, 09 de janeiro de 2009

*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Peregrino, Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE e da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também é coordenador do Portal da Vida e vice-presidente do Centro de Ética Social Martin Luther King.
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br
Leia também este texto no site: www.portaldavida.net.