Ministério PARA A MISSÃO integral

Dom Sebastião Armando - Bispo Diocesano

APRESENTAÇÃO

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares
Diocese Anglicana do Recife
Sabemos que a tarefa da Igreja é a de ser instrumento do Reinado de Deus. Ora, segundo as Escrituras, Deus tem o propósito de revelar e estender Sua soberania sobre toda a criação (cf. Gn 1). Quando, então, falamos do Reino de Deus, referimo-nos ao mundo, à sociedade, ao dia-a-dia das pessoas, aí é que se deve realizar e manifestar o que Deus pretende para Sua obra, como o anuncia tão belamente o Apóstolo na Epístola aos Romanos, capítulo 8.
O aspecto religioso da vida, mesmo sendo o mais profundo, não é toda a vida. Tudo tem a ver com o religioso, e sobretudo com a fé, mas o religioso não é tudo. A vida tem muitos outros aspectos. O campo do religioso é onde se explicitam as perguntas e a busca pelo sentido da vida, e se experimenta a relação com o Absoluto. Mas a vida é bem mais que religião. Particularmente bem mais que as formas concretas que vão tomando nossas buscas religiosas. A vida é também economia, são relações sociais, é poder político, é produção cultural. Tudo isso, e não só a religião, tem de estar sob a soberania, o propósito de Deus e o Seu julgamento. E a Igreja de Cristo, entre muitos outros, é instrumento privilegiado para que isso aconteça de fato (cf. Ef 1).
A variedade de ministérios na Igreja deve promover o exercício desta tarefa: ajudar a criação a tornar-se cada vez mais Corpo universal de Cristo, “nova criatura”, conforme a perspectiva que se expressa claramente em Romanos 8, Efésios 1 e 2 e Colossenses 1, 15-20.
Nas “05 Marcas da Missão”, segundo a Comunhão Anglicana, nossa tarefa de evangelizar é anunciar a Boa-Nova de Cristo, chamar à conversão, batizar as pessoas e iniciá-las à vida comunitária. Mas diz-se claramente que o objetivo de tudo isso é nos prepararmos sempre mais a assumir serviços de amor em solidariedade com as pessoas necessitadas; a lutar corajosamente em vista de colaborar na transformação das estruturas injustas da sociedade; a zelar cuidadosamente pela vida na terra, conservar e renovar os recursos da criação. Como vemos na Bíblia, o grande objetivo da Igreja é que se revele finalmente a face cósmica de Cristo, a nova figura da criação (cf. Rm 8 e Ap 21).
Lamentavelmente, freqüentes vezes, a Igreja se retrai e quase se reduz aos aspectos religiosos de seu ministério. Ora, na verdade, a religião na Igreja se destina a ser só instrumento da Palavra e da obra de Deus. Não tem sentido por si mesma, é só meio a serviço da Revelação e da plena Libertação. Esquecemo-nos facilmente de que a oração, a meditação, o culto são exercícios necessários, sim, mas para nos prepararmos aos combates de Deus, que se dão, não prioritariamente no recinto dos templos, mas na arena do mundo. É essa a grande lição de toda a Bíblia. Nossa oração tem de ser como a de Jesus, “oração da vigília” que nos prepare para assumir corajosamente a tarefa profética de restaurar em nossas vidas e na sociedade a Justiça de Deus. (cf. Is 42; Lc 4, 16-21).
Entre os diversos ministérios (cf. Ef 4, 1-16), o Diaconato é particularmente uma vocação que se “ordena” a exercer um ministério “mundano”, “secular”. É o que se poderia chamar de ministério “sacramental” nas formas do dia-a-dia do mundo. Sua tarefa precípua é levar a comunidade da Igreja a inserir-se na vida do mundo, participar de seus sonhos, de suas aspirações e de suas lutas, e trazer o mundo para o interior da vida da Igreja, a qual deve estar a seu serviço. Não é nem exclusivamente, nem primariamente ministério cultual. Antes de tudo, é serviço à evangelização da sociedade, anúncio de que o mundo é de Deus e por isso para Ele deve voltar-se, converter-se. Por isso, para anunciar o Evangelho mediante gestos e palavras, assume particularmente a diaconia social e política para, desse modo, realizar os sinais do Reino de Deus, aqueles que Jesus mesmo indica no Evangelho: abrir olhos (cf. Jo 9), levantar da paralisia, incluir gente excluída, fazer ouvir novas propostas de vida, libertar das alienações, ajudar a renascer mediante vitórias sobre a morte, restaurar a dignidade dos pobres (cf. Lc 4, 16-21; 7, 18-28).
Não é por acaso que na Liturgia as funções típicas do Diaconato são aquelas que simbolizam seu ministério “secular”, de ser ponte entre a Igreja e a sociedade: liderar a assembléia litúrgica na intercessão, isto é, trazer para o coração da Igreja as necessidades e as dores do povo, sobretudo das pessoas mais necessitadas; proclamar o Evangelho para que percebamos com clareza as exigências da vontade de Deus e o testemunho de Jesus; recolher as ofertas materiais para manter a vida da comunidade e partilhar com quem é pobre e necessita; preparar a mesa do Senhor, que é sempre a mesa profética que anuncia a partilha do pão para a vida do povo, como centro de nosso compromisso de fé (cf. Mc 6, 30-44); despedir a assembléia, enviar-nos ao mundo para aí exercer o serviço de Cristo, o Diácono por excelência (cf Fl 2, 5-11), como nos ensina Santo Inácio de Antioquia. Serviço de Cristo, que visa a redimir e transfigurar o universo, imprimir no corpo do mundo “as marcas de Jesus” (cf. Gl 6, 17).
Pessoas são ordenadas diáconos e diáconas para liderar o povo cristão em duas frentes que levem a Igreja mais além das fronteiras e que são intimamente conectadas entre si: a Evangelização e a Diaconia Social e Política. Esta, sempre como primeiro passo e dimensão permanente daquela. A palavra de anúncio da Boa-Nova tem de estar legitimada por gestos significativos que manifestem o carinho de Deus na vida das pessoas, gestos que as levem a perguntar: “Em Nome de quem nos fazeis estas coisas?” (cf. At 3, 1-10). Só fomos enviados e enviadas a evangelizar. Qualquer trabalho de ação social na Igreja tem sentido na medida em que revele a presença amorosa de Deus, como de Pai ou Mãe. Na medida em que faça as pessoas experimentarem concretamente sua dignidade de filhos e filhas de Deus. Finalmente, é mediante o aproximar-se daquelas pessoas e grupos, que o mundo despreza e exclui, que a Igreja, ela mesma, se deixa evangelizar. Estar junto das pessoas crucificadas é que nos revela a Cruz de Jesus em toda a sua força e atualidade, conforme nos ensina o Apóstolo São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulos 1 a 4.
Acompanhei com interesse o trabalho do Reverendo Sílvio no projeto social no município de Araçoiaba, na zona da mata de Pernambuco, área intermediária entre o Recife e João Pessoa. Município de gente muito pobre e abandonada em meio ao “inferno verde” da cana de açúcar. Logo percebi aí uma particular realização do ministério diaconal. Não era em torno do tempo que se congregava o povo, mas em redor da urgente tarefa de resgatar a vida de pobres, que são o sagrado ícone de Cristo (cf. Mt 25, 31-46). Aparentemente não se tratava de trabalho religioso, mas era presença qualificada da Igreja como fermento na massa de uma sociedade de opressão e exclusão, como luz em ambiente de densas trevas (cf. Mt 5, 13-16). O Reverendo Sílvio não celebrou nem um culto anglicano em Araçoiaba, mas exerceu plenamente sua ordenação de diácono anglicano, pois aí estava como “ordenado”, destinado a proclamar, por gestos e palavras, a Boa-Nova de que filhos e filhas de Deus podem ser mais felizes, podem tomar posse do mundo, como co-herdeiros com Cristo da obra da criação (cf. Gl 3, 23–4,7); pode haver “vida em abundância” para todo o povo, pois essa é a vontade de Deus (cf. Jo 10, 10). Foi justamente por isso, “porque amou tanto o mundo que Deus entregou o Seu próprio Filho unigênito” (Jo 3, 16).
Quando aceitou o convite para servir na Diocese Sul-Ocidental, no Rio Grande do Sul, e se despediu de nós no início do ano de 2008, pedi-lhe que nos deixasse seu testemunho. Uma maneira de nos dizer “até logo” e nos interpelar e nos recordar da tarefa essencial que temos recebido como Igreja de Jesus. Desejo a todos e todas nós, e de maneira especial a nossos diáconos e diáconas, que nos sintamos estimulados a redescobrir o lugar e a tarefa de nosso ministério, de serviço em nome de Cristo no coração do mundo. Que ainda ressoem com força mobilizadora em nossos ouvidos e corações as famosas palavras de João Wesley, o anglicano que deu origem ao movimento metodista: “O mundo inteiro é minha paróquia”!









Ministério PARA A MISSÃO integral
(Diaconato, um olhar diferente?)
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Revdo. Sílvio Freitas*
“Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser o servo…” (Mt 20, 26)
Após partilhar com meus colegas, em um dos nossos encontros de diáconos, um pouco de minha vivência ministerial no ambiente do trabalho “secular”, recebi um convite do Bispo Dom Sebastião para ampliar esta partilha aos demais colegas de ministério. Este relato é uma simples reflexão sobre minha prática. Espero que nos possibilite descobrir alguns caminhos de solidariedade.
O trabalho secular a que me refiro é um projeto social, iniciativa de uma empresa privada em parceria com o governo municipal, onde atuava como coordenador de uma rede chamada “Envolvimento Comunitário”, trabalhando diretamente com um grupo de voluntariado.
Antes, talvez, fosse importante falar sobre minha compreensão da integralidade do ministério. Sempre achei muito complicado e esquizofrênico o dualismo a que fui submetido desde pequeno no meio religioso: o mundo “espiritual” e o “material”; “corpo” e “espírito”; “religioso” e “secular”, etc, como se fosse possível separar um do outro na vida. Entendi que alimentar esse dualismo é desconsiderar tanto a unidade do ser humano, quanto a universalidade da missão de Deus. O contato com a teologia foi libertador: percebi que o maior desafio era a harmonia, o equilíbrio. Deixei de ser um extraterrestre, aprendi a valorizar o humano como alguém que Deus ama e deseja, o corpo como um lugar onde o Amor de Deus se realiza (Rubem Alves); percebi a necessidade de uma religião que seja relevante para o seu contexto, que procure responder às reais necessidades das pessoas com honestidade (Bonhoeffer).
Sem compreender a essência do ministério de Cristo, os discípulos, representantes muitas vezes de nossas próprias consciências, discutiam entre si sobre quem seria o maior ou o mais importante entre eles. A resposta de Jesus, contrariando os anseios humanos por “poder” e “status”, revela a ordem inversa do Reino dos Céus. Assim, manifesta o que deve nortear a vida de quem se sente vocacionado ao ministério como discípulo ou discípula: o serviço.
Todo esforço para entender e vivenciar esse ministério só é possível à luz da vida e dos ensinamentos de Jesus. O paradoxo do ministério de Cristo, encarnado no Servo Oprimido e Vitorioso: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão” (Mt 20, 28), representa um dos grandes desafios de nossa atualidade, muitas vezes na contramão de Seus ensinamentos.
Nossa vocação é para o serviço. A capacitação nos vem do mesmo Espírito que ungiu Jesus para o ministério (cf. Lc 4, 16-21). Essa vocação nasce de um profundo amor pelo humano e se aperfeiçoa na capacidade de desenvolver um olhar diferente sobre a realidade, à luz do exemplo de Cristo. Jesus sempre foi um Mestre do olhar diferente, olhava além das aparências, enxergava o que havia de melhor nas pessoas. Pouco importava se para certa gente essas pessoas não passavam de pecadoras, adúlteras, prostitutas, traidoras ou cobradores de impostos a serviço dos estrangeiros dominadores. Jesus não as via assim. Quando enxergamos nas pessoas o que elas têm de melhor, estamos motivando-as a transformar sua vida. E nosso serviço em amor é capaz de transformar muita coisa da realidade na qual vivemos. Na verdade, porém, tudo começa com um novo jeito de olhar, um olhar diferente.
Pensando assim, compreendo que na prática não há distinção entre meus paroquianos e meus colegas de trabalho, pois sou igualmente interessado no bem estar de todos e na promoção de um ambiente saudável, considerando a integralidade das pessoas.
Sempre entendi que meu trabalho profissional ou social é parte integrante do meu ministério, e de modo muito natural busquei oportunidades de vivenciá-lo. Mesmo no comércio, onde geralmente são mais comuns os conflitos relacionais devido à competitividade e departamentalização, promovia encontros de vivência da espiritualidade com músicas e reflexões partilhadas. Agora percebi ainda mais claramente que o que antecede o culto é a construção de relacionamentos, a predisposição de servir e de se importar com os outros. No projeto social, porém, me surpreendi com a proporção que o meu ministério alcançou. Acredito que isso aconteceu pela natureza e o objetivo da tarefa e, principalmente, pelo trabalho desenvolvido com o voluntariado.
Comecei como instrutor de um curso de capacitação para jovens de baixa renda – Escola de Fábrica –, uma das primeiras ações do projeto. Foi o evento que marcou o início do reconhecimento de meu ministério, tanto pelos discentes e docentes, como pelo time da direção. Foi uma das experiências mais ricas de minha vida ministerial. Este sentimento ficou registrado em uma de minhas falas, quando da primeira visita do presidente nacional da organização mantenedora, tive a idéia de falar sobre a mística do curso, após a explicação de outro professor sobre a estrutura organizacional: “Uma vez já conhecida a estrutura, o formato, ou seja, o corpo do Escola de Fábrica, gostaria de falar sobre a alma, ou o espírito, o fôlego que deu movimento e vida a este inesquecível evento, pois, o que é um corpo sem um espírito que o alimente, ou um espírito sem um corpo que o realize? Então, não poderíamos deixar de falar sobre esse espírito.
Falar sobre espírito é sempre um falar subjetivo, é comentar sobre algo que não se vê, que não se pode tocar… Mas esse não é o nosso caso, tudo era bem visível… Bem cedo aprendemos que era necessário dar o que tínhamos de melhor, e que essa oportunidade seria única, jamais se repetiria, não da mesma forma… E, convivendo, aprendemos a despertar uns nos outros, o que tínhamos de melhor… As aulas eram mais do que aulas… As atividades em grupos, mais que atividades… Não era um curso comum… Todos percebiam a alegria com que nos encontrávamos todos os dias: o abraço, o beijo, o carinho, a oração, a música, a sensibilidade de perceber o outro, a solidariedade, o conselho, os puxões de orelhas… Tudo fazia parte do espírito de nossa escola, e isso nos fez olhar para vida com outros olhos. As mudanças para melhor começaram a acontecer: aumento da auto-estima, despertar de lideranças, interesse pelos estudos com melhores notas… Um de nossos coordenadores, se referia a este espírito como a “mística” do Escola de Fábrica. A esta mística, ou seja, a este espírito, chamamos “AMOR… Amor que fez deste evento uma das experiências mais marcantes de nossas vidas. Poderá vir o dia em que a distância geográfica nos afaste uns dos outros, mas nunca, nunca apagará dos nossos corações os momentos que vivemos, nem o que nos tornamos uns para com os outros”.
Foi a partir desse momento que o time da direção começou a me ver com outros olhos…
As habilidades que desenvolvemos ao longo de nossa vida eclesiástica – musicalidade, integração, sensibilização, motivação e mobilização de pessoas; reflexão sobre a realidade e solução de conflitos – são facilmente assimiladas no ambiente de trabalho, e no meu caso foram bem aproveitadas, principalmente porque uma das características do projeto é o trabalho com o voluntariado, que soma quase 500 pessoas.
Logo após o encerramento do curso Escola de Fábrica, recebi da equipe gestora uma proposta para continuar no projeto: primeiro, coordenei dois grupos de voluntários; um diagnóstico na rede de educação do município e por último a rede de envolvimento comunitário. Paralelamente às atividades administrativas, sempre era convidado para dirigir os eventos motivacionais no que se referia a música, animação e espiritualidade, bem como participava com mensagens no programa de rádio local que transmitia diariamente informações sobre o projeto.
Fazendo uma reflexão de minha vivência ministerial no ambiente do trabalho ressaltaria três principais marcas:
Música
A música foi uma grande ferramenta de integração, motivação e cultivo da espiritualidade, e uma forte marca do meu ministério. Músicas marcam momentos, grupos e pessoas, e foi isto o que aconteceu. Alguns alunos do curso Escola de Fábrica começaram a se interessar por violão, animando também o grupo. Montamos ainda um grupo de música com talentos da própria comunidade, para animar os encontros dos voluntários, com papel fundamental nos momentos de expressão da espiritualidade. Com música iniciávamos sempre nossas reuniões e encontros de coordenação, com música celebrávamos nossos resultados, fazíamos homenagens e refletíamos sobre a realidade. Em sua maioria eram músicas gospel e outras, populares com letras significativas para o contexto.
Espiritualidade
O que passamos a chamar de “momentos de espiritualidade” tinha o principal objetivo de fazer as pessoas perceberem Deus no que realizavam. Acredito que o objetivo do projeto – melhorar a qualidade de vida das pessoas – tem tudo a ver com a missão de Deus. Era preciso fazê-las entender que sua movimentação para o outro é movimentação para Deus, pois Ele se identifica com o necessitado e excluído, e que é possível encontrá-lo no que vivenciamos, ou no que podemos vivenciar diariamente. A missão de Deus é também melhorar a qualidade de vida das pessoas, e “vida em abundância”. A missão de alfabetizar voluntariamente, de casa em casa, ajudando pessoas a recuperar sua auto-estima, bem como a oportunidade que uma vida inteira lhes negou quando crianças, fazendo-as acreditar que é possível, e que ainda é tempo de viver coisas novas, é Evangelho. A luta pela vida, trabalhando para a erradicação da mortalidade infantil no seu município, visitando famílias, levando informações de saúde, identificando e encaminhando crianças para o centro de tratamento, é Evangelho. As mensagens lidas no programa de rádio também tinham essa conotação, de uma espiritualidade encarnada e inserida nas coisas e pessoas do cotidiano.
Afetividade
Penso que cultivar a afetividade foi a marca mais importante do meu ministério, e que abriu espaço para as demais. Meus colegas de trabalho tornaram-se alvo do meu cuidado e ação pastoral. Cultivamos um ambiente de afetividade: conhecíamos as histórias e participávamos das dificuldades e conquistas de cada pessoa; cuidávamos uns dos outros; procurávamos resolver os nossos conflitos com humildade, transparência e honestidade. O resultado foi a construção de relacionamentos sólidos. Isso só é possível quando se gosta de gente, não só de gente como a gente, mas de gente com os mais variados humores e temperamentos. Quando estamos interessados em ajudar, atento às necessidades, quando aguçamos a escuta e o olhar, e amadurecemos nossa capacidade de amar incondicionalmente. Fico surpreso e entusiasmado quando leio artigos ou livros, fora dos domínios da religião, falando com tanta propriedade deste tema: “Sem amor não é possível reinventar e reencantar nenhum mundo, nenhuma sala de aula… Nós precisamos da pedagogia do amor… Somente no dia em que aprendermos a amar total e incondicionalmente é que receberemos um certificado de humanidade plena.” (PEDAGOGIA INICIÁTICA – Educar para Ser, Roberto Crema). Acredito que cultivar a afetividade é uma atitude catalisadora de transformação.
Enfim, ter a oportunidade de vivenciar meu ministério diaconal, especialmente no projeto social onde tomou maiores proporções, foi uma das maiores realizações da minha vida. Comentava com meus colegas de trabalho que me sentia como um jogador profissional de futebol, ganhando a vida fazendo o de que gosta. Penso que a realização maior é sentir-se parte de um processo de transformação mais amplo. Ficava muito emocionado quando escutava os depoimentos entusiasmados de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela oportunidade de um novo aprendizado através de um curso profissionalizante ou da alfabetização, pessoas recuperando sua auto-estima, pessoas despertando para uma espiritualidade mais encarnada, pessoas felizes pelo simples fato de poder ajudar as pessoas e sua comunidade. É claro que tudo não é um mar de rosas, presenciamos também atitudes que estão longe do processo de transformação, temos que respeitar os passos de cada pessoa, e entender que um processo de contracultura é geralmente lento, e deve ser administrado com serenidade e sabedoria. No final de tudo fica um misto de dever cumprido e de muito ainda por realizar.
6 de Janeiro de 2008
Festa da Epifania do Senhor
*Revdo. Silvio, teólogo, clérigo da Diocese Sul-Ocidental, anteiormente clérido de nossa Diocese