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Confissões de um franciscano

Publicado em 18.10.2009, no Jornal do Commércio, Caderno Religiões

Por Frei Aloísio Fragoso

Há alguns dias passados, em 4 de outubro, Dia de São Francisco, tive oportunidade de revelar para muita gente e de muitas maneiras como a minha vida divide-se em duas grandes etapas: antes e depois de conhecer o Porverello.

Foi aos 17 anos, ao ingressar no Noviciado franciscano, primeira experiência de trocar “os hábitos seculares”pelas “vestes sagradas”, foi então e aí que tive, finalmente, o sonho mais maluco de quantos se possa ter: ser santo. Como ouvia meus mestres espirituais garantirem que a obediência às regras pré-estabelecidas era um caminho certo de santidade, entrei de cabeça, corpo e alma na fidelidade às normas que regiam a vida comum, lá estava eu, sem um minuto de atraso, na oração comum, na recreação comum, nas tarefas domésticas comuns e em tudo mais que comum fosse prescrito, embora, particularmente, me agitasse por dentro, na dificuldade de harmonizar o rigor regulamentar com os impulsos da natureza, sem falar da mente alada, que não cessava de levantar vôo para além daquela prisão. Doces prisão, por sinal, pois ali a vida corria como em pista de atletismo, cada um de nós (éramos 10 jovens companheiros) ardendo de idealismo. Dormia vestido de hábito e capuz, pensando-me S. Francisco, macerava-me às sextas-feiras, acreditando-me mais próximo do Crucificado, demorava-me excessivamente na oração pessoal, imitando os grandes místicos, acordava mais cedo do que o toque da sineta e a voz do irmão despertador.

Foi quando mudei de Noviciado para os estudos filosóficos em Olinda que sofri o primeiro impacto moral. Meus novos companheiros de vocação não eram comparsas de idealismo. Quebrar regras que, para mim, constituíam caminho de perfeição, eles reputavam como pequenas aventuras inconseqüentes… uma cervejinha escondida, vez por outra, nada demais, umas certas irreverências verbais, nada demais, uma escapada à tardinha para ir ao cinema, ninguém é de ferro, umas distrações na recitação do ofício divino, Deus perdoa, e por aí em diante, sobrando para mim a fama de chato, enquanto os demais, sem suspeitada pretensão de ser santos, iam construindo a fraternidade.

Quem veio em meu socorro? São Francisco. Após anos e anos em que me passaram a figura de um homem bonzinho, humildezinho, amiguinho dos passarinhos, e isso era a prova de santidade, ele mesmo colocou em minhas mãos, através de grandes biógrafos e estes me mostraram a sua verdadeira face, provocando um renascimento em minha trajetória vocacional. São Francisco fora um louco aventureiro e o que parecia nele humildade ia muito além daquela convencional docilidade que produz opressores oprimidos. Neste momento em que a verdadeira figura de São Francisco entrou na minha formação, passei a ser duplo, eu e ele, pois nada mais eu faria, daí em diante, que não fosse a ele comparando-me, que me perdoem a presunção, mas era isso mesmo, descobri meu alter ego, o meu ideal e agora já não precisava de regras, bastava-me o modelo que me propusera apaixonadamente. O ser franciscano era agora o meu norte-sul-leste-oeste. E não o ser continua sendo até hoje o meu pecado e o meu arrependimento.

» Frei Aloísio Fragoso é franciscano

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