MENSAGEM DE NATAL – 2009
Dom Sebastião Armando, Bispo Diocesano
Diocese Anglicana do Recife
“Eis que vos anuncio uma Boa Noticia, de grande alegria para todo o povo: Hoje nasceu para vós o Messias e Senhor”
Queridos irmãos e queridas irmãs,
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Não sei se vocês já pararam para pensar que Liturgia é essencialmente poesia. É por isso que tantas vezes somos repentinamente tomados pela emoção em momentos do culto: um gesto, um cântico, o testemunho de alguém, algum sentimento que nem sabemos explicar direito.
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Mas não se trata de poema como se apenas se recitassem textos bonitos.
Às vezes, pensamos em poesia como algo ilusório, fora da realidade. Se alguém é desligado, aéreo, ausente do mundo real, é comum dizer-se: “Fulano é um poeta”, para indicar que é um desastre no campo da prática da vida. É interessante, porém, que a palavra poesia, que vem da língua grega, sinaliza na direção contrária. “Poesis” quer dizer AÇÃO.
Domingo passado, na Catedral, nosso pastor concluía o sermão chamando a atenção para o fato de que “palavras como coragem, confiança e futuro têm tudo a ver com AGIR’. E dizia isso ao comentar um poema, o cântico da bem-aventurada Maria de Nazaré, mãe humana do Filho de Deus. Um poema inspirava à ação.
É claro que para agir é preciso pensar. As razões surgem na mente, o pensamento nos serve para ordenar, planejar, organizar a vida. Mas as motivações, o que nos move, de verdade, é o coração. É do coração que nasce a poesia. Não são os conceitos que nos mobilizam a agir, agimos por paixão; são as emoções que nos movem. E as emoções não vêm de cima, da cabeça; irrompem de dentro, do mais íntimo, a Bíblia imagina que brotam das entranhas, das vísceras, dos rins, do útero. Quando queremos falar de algo que está profundamente enraizado em nosso íntimo, dizemos que é “visceral”.
Liturgia é poesia, nasce do que há de mais profundo em nós e se destina a chegar ao lugar mais íntimo em nós. Como dizia Sto. Agostinho, ao “mais íntimo que o meu próprio íntimo”, porque aí é que está Deus, ou melhor, porque Deus é isto, “o mais íntimo que o meu próprio íntimo.” Por isso, não é primeiramente objeto de nossos pensamentos, mas de nossas emoções, de nossas paixões, dos amores mais secretos e inefáveis. A melhor maneira de falar d’Ele é a poesia.
Por isso, Liturgia é poesia, mas poema em ação, não simplesmente texto poético, mas situação poética na qual todo o nosso ser se acha implicado, nosso ser inteiro se move, é poema em drama, como experimentamos na semana passada no “culto das luzes”. Ao comentar o poema de Maria, nosso pastor nos interpelava insistentemente: “Mova-se”… É que poesia tem tudo a ver com AÇÃO. É palavra que exige tornar-se gesto, é sonho que tem poder de transfigurar a realidade, é paixão que se destina a tornar-se compaixão.
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Na vida da Igreja há dois momentos poéticos mais altos: a Páscoa e o Natal. Todos dois celebrados e contados como passagem da escuridão da noite à luz irradiante da madrugada. Na Páscoa, lemos nos evangelhos: “No primeiro dia da semana, de madrugada, bem cedo, ao raiar do sol” (Mc 16, 2). No Natal, o texto que acabamos de escutar: “O povo que vagava nas trevas viu um forte clarão, a luz brilhou para quem vivia na escuridão” (Is 9, 1; cf. v2-9).
O texto do evangelho segundo Lucas que proclamamos nesta noite (Lc 2, 1-20), mesmo sendo aparentemente narração, na verdade, é um lindo poema. (Como dizer o mistério em linguagem descritiva ou conceitual? Nossos amores, só nos é possível cantá-los em forma de poemas). Ai se desenha o drama do Messias. Mas o Messias é o cabeça do povo messiânico. Aí se desenha o nosso próprio drama. Por sob o aspecto suave e até bucólico da história do nascimento da criança de Belém, o que a Palavra de Deus nos propõe é meditar sobre o drama no qual Deus mesmo está implicado. A verdade do Natal é que a eterna “Palavra de Deus se faz carne”, torna-se humana, histórica, frágil, mortal, mergulhada de cheio nas contradições e conflitos da existência no mundo, Deus se faz ser humano em construção… A verdade do Natal não é que Jesus é Deus e homem, como se fosse um composto de dois mundos, de duas partes distintas, algo como se dá com a esfinge ou a sereia. Não, Ele é Deus feito homem. Como nos diz a Carta aos Filipenses: “Esvaziou-se, tornando-se como os seres humanos, em tudo reconhecido como ser humano, abaixou-se” e assumiu a vergonhosa condição de escravo, com a morte de cruz (Fl 2, 1-8). Este é o mistério central de nossa fé, escândalo para a Filosofia (como é possível que o plenamente perfeito e infinito seja imperfeito na “carne”?), escândalo para as religiões e até para as igrejas cristãs (como podemos desejar e confiar num Deus que se faça como nós, quando justamente somos nós que nos queremos tornar deuses?)
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O texto do poema de Natal – como um auto teatral – tem três atos:
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O primeiro ato (v1-7) opõe os Impérios deste mundo ao quotidiano do povo: governantes, recenseamento para impor impostos e controle militar… os poderosos do mundo impõem seu sistema de poder e com isso invadem e perturbam o quotidiano do povo: um casal obrigado a viajar nas vésperas do parto, “não havia lugar para eles”, só uma manjedoura… Nossa vida também se acha invadida pelos projetos dos poderosos, sobretudo a vida dos mais pobres, ainda sem terra e sem casa num país de terra sobrante… Até nossas decisões de consumo quotidiano são execução inconsciente de decretos que nos vêm de cima. O Império nos rouba nossa própria liberdade de escolha…
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No segundo ato reúnem-se Céu e Terra (v.8-14): os anjos expressam plasticamente o mistério, a presença da Glória de Deus. O texto fala de glória, de luz, de alegria e de paz. Os anjos indicam de que lado está Deus: “Encontrareis um menino envolto em panos e deitado num cocho de animais, é este o sinal”. O sinal que revela o Salvador – o casal de pobres, a criança, os pastores… Lucas tem a clara intenção de se contrapor ao Império. O nascimento do imperador Augusto tinha sido anunciado com estas palavras: “No dia do nascimento do deus, boas novas foram anunciadas ao povo, nasceu-nos o Senhor e Salvador”. Não, “Senhor e Salvador” não é o imperador, mas o filho daquele casal de pobres à procura de um lugar na terra… gente que aparentemente não conta. “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos seres humanos, pois Deus os ama”. Os céus indicam claramente que o amor de Deus se revela em primeiro lugar como predileção pelos pobres e por seus aliados, nós, chamados a ser esses aliados, para sentir de perto a predileção de Deus.
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O terceiro ato do drama (v15-20) reúne num só grupo os pastores, Maria e José e o menino. O drama começara com a oposição entre o sistema de poder do mundo e os pobres; passamos em seguida à visão do céu que se comunica com a terra, lá naquele canto onde nasce a novidade entre os pobres; agora, os pastores tomam o lugar dos anjos e formam na terra um só grupo com Maria, José e o menino. Os pobres reunidos, no meio da escuridão da noite, iluminados por uma luz que os poderosos são incapazes de contemplar.
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O convite é que sejamos como os pastores, aliados de Maria, de José e do Menino, porque é assim que somos aliados dos anjos, aliados de Deus.
As condições, porém são claras:
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Primeiramente, é preciso ver a glória resplandecente de Deus e ouvir-Lhe a voz que nos indica qual é o sinal de nossa Salvação: “Um menino, envolto em panos e deitado num cocho de animais”. A luz do céu clareia nossa noite para deixar-nos enxergar o que os poderosos não desejam ver: que a novidade que salva nasce dos pobres e das crianças, o que viu muito bem João Cabral de Melo Neto com seu auto de Natal “Morte e Vida Severina”;
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Não basta ver a luz e escutar a voz, é preciso ter coragem de caminhar na noite, sair de nosso canto, desalojar-nos e ir em direção ao lugar onde se acha o Menino – isto é, Deus feito humano e pobre. Diziam os pastores: “Foi isto que o senhor nos comunicou”;
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É preciso mover-se, com prontidão, sair apressadamente e encontrar o sinal dado pelos céus. Em outras palavras, é preciso deixar o próprio lugar, aproximar-se, experimentar de perto essa proximidade, firmar a aliança com os prediletos de Deus (cf. Lc 6, 20; Mt 5, 3);
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“ao encontrar” (v16), é preciso cantar, anunciar, espalhar a noticia de qual é o sinal: que a Salvação nasce nos pequeninos, para quem não há lugar no sistema dominante no mundo – tal como se dá com crianças envolvidas em trapos, deitadas muito perto dos animais, como vemos nas casas dos pobres…
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É preciso que aconteça conosco, como aconteceu com os pastores: “E todos que ouviam isso assombravam-se com o que eles contavam” (v18).É preciso que a sociedade se assombre, se sinta espantada com o que nós contamos a ela: Deus revela a sua Salvação, surgiu, brotou finalmente , nasceu o que nos pode salvar: pequeninos, enrolados em trapos, jazendo em cocho de animais. Eis a noticia, paradoxal, incrível aos ouvidos dos poderosos: a Salvação do mundo está na vida, nas mãos das pessoas comuns, pobres e sem poder.
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É na aliança entre as pessoas comuns, como os pastores que se reúnem com Maria, José e o Menino, que a glória dos céus se manifesta. É na reunião e na organização das pessoas comuns, junto com os pobres da terra – sociedade civil – que teremos a força e o poder de Deus para transformar este mundo. Como nos dizia o Apóstolo São Paulo: a Sabedoria e o Poder de Deus estão no povo que os poderosos consideram fraqueza e lixo (cf. 1Cor 1, 26-31) – a sabedoria e o poder de Deus estão em nós, em nossa união e em nossa aliança com os pobres da Terra. Mas precisamos crer nisto, vencer a alienação que reside em nós e levar a outros essa Boa Noticia capaz de desaliená-los e crer em si mesmos. Esta, a tarefa da Igreja: anunciar, como os anjos, que o Senhor e Salvador não são os poderosos do Império, vejam como a cúpula de Copenhague fracassou. Mas nós, o povo encabeçado pelo Messias de Deus que se levanta e vem a nosso encontro desde as periferias do mundo: aborígenes, gente negra, mulheres, crianças, segmentos excluídos da sociedade. O Deus conosco não é o Deus dos tronos – esses devem ser derrubados, como cantava Maria no domingo passado, o Deus conosco, nós O encontramos no lugar de quem não tem lugar, na estribaria. Este é o mistério central da nossa fé, o mistério que hoje celebramos: o nosso Deus é Jesus, frágil e pobre como nós, nós pobres porque aliados do Deus que se faz pobre entre os pobres. Eis o caminho que o Evangelho nos indica como Igreja de Deus!
Feliz Natal, com a coragem de Maria, de sair por vales e montanhas, a cantar a maravilha do Messias de Deus, que eleva pobres e derruba tronos, e disposta a servir no quotidiano da casa de pobres, como a de sua prima Izabel, que ainda resistem ao poder dos impérios!
Recife, 25 de Dezembro de 2009








Querido Dom Sebastião: Feliz Natal!!!
Ao ler o seu lindíssimo texto fui tomada de profunda nostalgia. E nostalgia é pra mim poesia à medida que me traz à memória uma ação passada que sinto em mim e que me mantem firme na fé no mistério maior que nos une, como tão belamente descreve o seu texto.
Louvado seja o Deus-criança, que se tornou um de nós!
Compartilho uma das canções que tanto ouço e repito, lindamente cantada pelo Prisma Brasil: UM DE NÓS
“Tanta paz, santa paz
Já anoiteceu, tão tranqüilo está
Terá sido numa noite assim?
Imagine o anjo a contemplar
A ternura de Maria a olhar
Que o Rei nasceu!
Um de nós, menino Deus nasceu
Deus se fez um de nós, que amor grandioso
Maravilhosa luz, envolve ali Jesus
Na noite em Belém, homem Deus se fez
Um de nós, Cristo Rei nasceu
Deus se fez um de nós naquela noite
Deus se fez um de nós
Um de nós
É noite de Natal
…”
Que tenhamos dias natalinos em 2010!
Cheiros fraternos.
Lilian Lira, Diaconisa
Ó que bom poder dizer FELIZ NATAL e FELIZ ANO NOVO, para todos que fazem a família ANGLICANA DA DIOCESE DO RECIFE!com especialidade para o meu querido Bispo Dom Sebastião obrigado pelo seu acolhimento a está família, são os votos do seu filho menor everaldo Jose. (Paulista – Pe.)
Dom Sebastião, parabens pela bela mensagem de Natal, vejo que cada vez o senhor é mais iluminado polo Divino Espirito Santo!
Saudades!… Isa
Dom Sebastião parabens pela bela mensagem de Natal,vejo que cada vez o senhor é mais iluminado pelo Divino Espirito Santo! Saudades!… Isa
D.Sebastião, irmão carissimo, graça e paz da parte de Deus nosso Pai.
Ficamos bem gratos com a tua passagem á Fraternidade contemplativa do Discípulo Amado.Deus seja bendito por essa visita e que seja repetida sempre no amor e na ternura da Trindade Santa que nos une em seu amor generoso.
Um fraterno abraço do seu irmão em Cristo
Ir. Geovan – monge do Catita