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Carta Pastoral de Dom Sebastião Armando por ocasião do XXVIII Concílio Diocesano

AO REVERENDO CLERO, AO MINISTÉRIO PASTORAL AUXILIAR, ÀS LIDERANÇAS LEIGAS E A TODO O POVO DA DIOCESE

ALEGRIA E PAZ NO SENHOR!

1. Estamos a celebrar nosso Concílio Diocesano, a grande festa da Diocese, quando toda a Igreja se congrega mediante suas representações. Além de tratar do que diz respeito a questões da vida quotidiana, reunimo-nos para orar em conjunto, invocar a assistência do Espírito Santo e para simplesmente nos rever, nos abraçar, conversar e confraternizar e, assim, fortalecer os laços de fraternidade e unidade.

2. Este Concílio tem um significado particular. Seu objetivo é projetar a Igreja para o futuro. Depois das tribulações pelas quais temos passado; depois deste atual período em que o foco tem sido a cura de feridas e a restauração de nossa comunhão e da esperança; chega o momento de proclamar o que queremos de nosso futuro nesta região, desenhar de maneira mais nítida qual deve ser a vocação do Anglicanismo no Nordeste do Brasil.

3. O texto de Neemias 4, 19-20 nos põe diante de tal tarefa e do caminho para cumpri-la. É preciso reconstruir as muralhas da cidade. É certo que na Igreja o mais importante é a vida, a vivência profunda dos critérios do Evangelho e, por isso mesmo, as relações entre as pessoas. Igreja são antes de tudo relações e a qualidade dessas relações. Infelizes de nós se projetássemos em primeiro plano a imagem de instituição bem organizada, forte, rica e poderosa. Estaríamos longe de Jesus. Na verdade, não somos primariamente instituição, mas fraternidade, reunida para a tarefa sublime de anunciar o Evangelho.

4. De acordo com as imagens de Neemias, em primeiro lugar têm de estar sempre a vida e as relações na cidade. De fato, no capítulo 5º, chama dramaticamente a atenção para as relações de fraternidade e justiça entre o povo, convocando-o a comprometer-se particularmente com o cuidado com quem mais necessita.

5. Mas qualquer processo vital só tem possibilidade de fluir se se organiza e estrutura. O dinamismo espontâneo e maravilhoso da vida, se não alcança um mínimo de organização, torna-se autodestrutivo. O que é nosso corpo, senão organismo, isto é, organização, instituição¿ Por ele torna-se possível o fluir do espírito e seu desenvolvimento.

6. Ao projetar a Igreja para o futuro, temos, necessariamente, de refletir e decidir sobre como faremos para fortalecer a institucionalidade diocesana. É claro que é na base, nas comunidades, que se passa o que há de melhor na vida eclesial. É aí que no dia a dia as pessoas se consagram a Deus e assumem o suave jugo do Evangelho, com dedicação que, em certos casos, pode chegar até o heroísmo. Doutro lado, no Anglicanismo, a Igreja local é, na verdade, a Diocese, instância de articulação, para que as várias comunidades formem uma rede em comunhão e, assim, em torno do Bispo, se constitua a unidade do conjunto.

7. Diocese não é uma superestrutura, mas a dimensão ou instância de articulação, apoio e supervisão, de tal modo que se instaure aquela relação dialética entre diversidade e unidade, particularidade e comunhão, local e universal, dialética essa que estrutura a sacramentalidade da Igreja. Sim, porque não se trata apenas de aspectos meramente organizacionais, jurídicos, canônicos, mas de sacramentalidade, trata-se da Igreja enquanto sacramento, isto é, sinal visível e instrumento, que nos torna possível ouvir, ver, contemplar e apalpar o Mistério supremo de nossa fé, que “a Vida se manifestou e nós a vimos e dela damos testemunho”, por isso “nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo (…) para que nossa alegria seja completa” (cf. 1Jo 1, 1-4).

8. Para que haja Igreja Anglicana, é preciso que vivamos em “Comunhão Anglicana”, a saber, é preciso que a realidade concreta e organizacional da Igreja nos permita vivenciar o mistério mais profundo de uma relação espiritual que nos faça participar da eterna comunhão que constitui o próprio Deus. É preciso viver a Igreja como ícone da Trindade, não se trata apenas de unidade organizacional, mas de comunhão teologal. Por isso, dizia-se na Igreja antiga que “o Bispo está na Igreja e a Igreja está no Bispo”, relação em que os dois termos se implicam reciprocamente, uma vez que se trata de instituir “um a partir de muitos para que, assim, se constitua a unidade a partir da pluralidade”. É pela diocese que cada comunidade local se articula com as outras Igrejas locais diocesanas, ou seja, a Província, e com as Igrejas da Comunhão Anglicana espalhadas pelo mundo inteiro, mais de 80 milhões de pessoas, em mais de 160 países, e ainda com as demais Igrejas em comunhão no âmbito da catolicidade do Corpo de Cristo. Entre nós, no entanto, a institucionalidade diocesana ainda permanece muito frágil.

9. Neemias também nos indica o caminho: “A obra é grande e extensa e nós estamos espalhados ao longo da muralha, longe uns dos outros. Reuni-vos em torno de nós no lugar donde ouvirdes o som da trombeta e nosso Deus combaterá por nós” . Não há outro caminho para construir a comunhão, senão a própria comunhão. Não há outro caminho, senão a unidade e com ela a articulação das relações e a soma de esforços pela qual todas as comunidades e as pessoas possam sentir-se fortalecidas e confortadas.

10. Estamos a reconstruir as muralhas da cidade, tapamos-lhes as brechas tendo plena consciência de que estamos cercados de poderosos adversários. É preciso manter-se de prontidão, “com uma das mãos cada qual fazendo seu trabalho e com a outra segurando uma arma”. Com essas imagens militares a Bíblia quer significar que o trabalho do Reino de Deus é renhido combate. É desta mesma maneira que se simboliza o anúncio do Evangelho em Pentecostes: línguas de fogo são labaredas, labaredas são espadas de fogo (cf. Ex 3, 1-6; Js 5, 13-15; Is 66, 15; Gn 3, 24).

11. Por isso, o chamado que se nos faz é para formular propósitos, isto é, objetivos, planos e estratégias. Nossa força residirá na unidade e convergência de propósitos, e a unidade se expressará e, ao mesmo tempo, será alimentada pelo diálogo, constituindo-se todos como um só. Só assim estaremos reunidos no lugar donde se pode ouvir a trombeta de Deus, Sua voz convocando-nos para a luta. Infelizes seremos se ao pensar no futuro escolhermos as vias duvidosas do passado, tão miseravelmente humanas, de interesses menores, de ridículos sentimentos de autoafirmação e de ilusório prestígio pessoal. Não precisamos trazer de volta tramas sombrias de jogos de poder (tão pequeno e tão ridículo), o de que precisamos é constituir “autoridade” para que em conjunto nos sintamos capazes de ser “autor”, isto é, capacidade de fazer crescer a Igreja como conjunto articulado do Corpo de Cristo, como o descreve o Novo Testamento, particularmente os textos paulinos.

12. Ao referir-nos a propósitos, vem espontânea a lembrança das “Cinco Marcas da Missão” no Anglicanismo. Estas sintetizam em moldura ampla quais devem ser os propósitos da Igreja:

13. Antes de tudo, a primeira, que é anunciar o Evangelho. Anúncio da Boa Notícia de que em Jesus Deus nos acolhe como filhos e filhas. Assim, a fonte de nossa dignidade na terra é nossa cidadania celestial que nos faz herdeiros e herdeiras da obra de Deus que é Sua criação;

14. É sobre essa Boa Notícia que se edifica a Igreja, comunidade, família de Deus, que nasce pela conversão e cresce mediante a comunhão de vida – koinonia, a escuta e o aprofundamento da Palavra de Deus e os sacramentos da Nova Aliança, sacramentos cujo sentido é serem sinais manifestativos e instrumentos daquilo que somos e devemos ser existencialmente cada dia pela graça que nos faz ser, além de nós mesmos, obedientes à Palavra. A segunda marca da missão é fazer surgir a comunidade da Igreja;

15. Se o propósito do anúncio kerigmático do Evangelho é fazer nascer a Igreja, o propósito da Igreja é por-se a serviço da sociedade humana, sobretudo aliviar as dores de quem mais sofre e ajudar a curá-las, “cuidar particularmente de quem ninguém cuida” (Arc. William Taylor). É que só se vive plenamente a própria dignidade humana em solidariedade com todos os seres humanos, como um único sólido. Se aceito que alguém possa ser vilipendiado em sua dignidade, já estou implicitamente aceitando que o mesmo possa acontecer comigo. A terceira marca da Missão é a solidariedade que se “exerce por serviços de amor a quem necessita”;

16. Não basta, porém, ir em socorro de quem necessita e sofre. A convivência social não se compõe apenas de relações entre pessoas e grupos. Como resultado, expressão e instrumento da articulação ampla das relações sociais, surgem as estruturas de uma sociedade, sobretudo na medida em que essa se faz cada vez mais complexa e mundial. As relações, mesmo aquelas interpessoais e íntimas, estão marcadas e profundamente condicionadas pelas estruturas econômicas, políticas e culturais. Por isso, o Evangelho nos impõe mais um propósito: “lutar para transformar as estruturas injustas da sociedade”. Aqui a ação da Igreja é chamada a ultrapassar, além da assistência, até mesmo a chamada promoção social, e assumir a dimensão política da caridade de Cristo, que tem a ver com a obra de reconciliação e restauração do mundo. Nisto é exemplar a Carta aos Efésios, quando, ao falar da paz internacional, a apresenta como especial manifestação da redenção de Cristo que se manifesta na vida e obra do povo crente (cf. Ef 2);

17. Finalmente, se a criação de Deus está em perigo, tem de ser propósito da Igreja “zelar pelos recursos da terra, conservar e renovar a vida, e inspirar compaixão por todos os seres do universo”. É por isso que a Comunhão Anglicana mundial está convidando insistentemente seus membros a participar com intensidade renovada de esforços como o da Rio+20, fortalecendo o clamor da sociedade civil por “outro mundo possível, necessário e urgente”, para pressionar governos e poderosos a não dificultar as necessárias mudanças. O problema ecológico diz respeito à vida e à obra de Deus, por isso diz respeito a nossas relações com Deus, é, assim, também uma questão teológica e se situa no coração da missão da Igreja.

18. Em resumo, nosso propósito tem de ser tornar-nos uma Igreja cada vez mais forte, a saber, imbuída da santidade de Deus, para ser agente do xalôm, da felicidade, do Reino e, deste modo, promotora da paz. O foco dos propósitos da Igreja não pode ser ela mesma, nem muito menos a simples promoção da religião. O foco da vida da Igreja é ser agente do Reino de Deus em vista da transformação do mundo.

19. Imbuídos da mística do Evangelho de Jesus, fortalecidos pelo diálogo fraterno e a convivência comunitária, disponhamo-nos, então, cada vez mais, a dedicar nossas vidas a tornar este mundo mais parecido com os sonhos de Deus. Que nosso programa de vida seja o das bem aventuranças: prontos a ser radicalmente pobres segundo o Espírito de Deus, famintos e sedentos de justiça, corajosamente dedicados a enfrentar o conflito com os poderes das trevas que hostilizam e perseguem os discípulos e discípulas de Jesus.

20. Em meio a tantas precariedades, ao experimentar a enorme e angustiante distância entre nossos sonhos e os pobres meios de que dispomos, fixemos os olhos em Jesus, autor e consumador da fé (cf. Hb 12, 2), e miremos o futuro com alegria e confiança, sentimentos que a esperança é capaz de produzir. Perseveremos na missão com
propósitos claros, haurindo forças de nossa unidade, a qual se manifesta e se alimenta pelo diálogo fraterno. Deus nos abençoe!

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