Mães da redenção

Fonte: CEBI

Qual é a diferença entre Proba, a Poetisa, e Proba, a Viúva? Será que Santa Helena realmente encontrou a Verdadeira Cruz? Qual foi a oração de Santa Mônica por Agostinho? Essas e outras questões são abordadas em um novo e fascinante livro chamado Mothers of the Church [Mães da Igreja] (Ed. Our Sunday Visitor), de Mike Aquilina e Christopher Bailey. Todos nós já ouvimos falar dos Padres da Igreja, e agora vamos ouvir falar das Mães da Igreja.

Embora o catolicismo seja acusado nestes dias de discriminação contra as mulheres por não ordená-las sacerdotisas e por fazê-las pagar por sua própria contracepção (o controverso mandato do Departamento de Saúde e Serviço Social dos EUA – HHS), o fato é que a Igreja praticamente inventou a ideia de igualdade entre os sexos com o famoso dito de São Paulo de que em Cristo “não há homem nem mulher” (Gálatas 3, 28).

Romanos do primeiro século zombavam dos cristãos por falarem e ouvirem as fracas mulheres, mas a visão cristã do mundo prevaleceu. Para conhecer a história interna desse instigante livro, o sítio Fathers for Good contatou o autor Mike Aquilina.

Eis a entrevista.

Você escreveu um livro sobre os Padres da Igreja, e agora sobre as Mães. Existe alguma substância real nas vidas das cristãs primitivas?

As vidas das mulheres cristãs são mais substanciais do que a minha vida jamais será. E elas provavelmente foram tão responsáveis quanto quaisquer homens pelo rápido crescimento da Igreja ao longo dos primeiros três séculos. A sua história não foi contada porque elas tenderam a trabalhar de formas que foram ignoradas pelos relatos históricos-padrão. Elas não foram guerreiras ou pregadoras ou legisladoras. Mas elas não sentiram necessidade de sê-lo. Elas viveram o cristianismo heroico e prodigioso em seus próprios termos.

É tão perigoso fazer generalizações sobre as primeiras mulheres cristãs quanto fazer generalizações sobre as mulheres cristãs que vivem na minha casa (eu tenho uma esposa e cinco filhas). As mulheres do nosso livro são maravilhosamente muito variadas. Há Tecla, que foi companheira de São Paulo em suas viagens. Há Proba, que foi uma poetisa, e outra mulher chamada Proba, que era uma administradora de negócios. Todos conhecem e amam as santas Mônica e Perpétua, que foram mães. As santas Marcela, Paula e Eustóquia eram estudiosas e contemplativas. As santas Blandina e Felicidade eram servas domésticas, mas nós as conhecemos melhor como mártires. Macrina foi uma guia espiritual e mestra de um (e talvez de dois) dos grandes Padres e Doutores da Igreja [São Gregório de Nissa e São Pedro de Sebaste].

Você diz que o cristianismo estimava as mulheres e as libertava. Como assim?

A frase comum aos dramaturgos romanos usada para as filhas do sexo feminino era “odiosa filha”. As culturas pagãs tinham pouco respeito pelas mulheres e pelas meninas. Elas eram consideradas um vazamento na economia familiar, já que as meninas exigiam um dote, mas nunca contribuiriam com renda e prestígio para a família. Assim, elas se casavam o mais cedo possível, geralmente aos 11 ou 12 anos, com um homem escolhido pelo seu pai. Elas eram livres para recusar a sua escolha, mas raramente o faziam, já que o pai era livre para condenar à morte uma filha que o desobedecia. E essa possibilidade não era tão improvável. Muitas, se não a maioria, das filhas nascidas em famílias pagãs eram mortas ao nascer. O infanticídio feminino era rotineiro na sociedade greco-romana. Ele era legal e até mesmo elogiado pelos filósofos.

No mundo pagão, o valor de uma mulher vinha da sua relação com um homem – primeiro o seu pai, depois o seu marido, por último pelos seus filhos. Suas obras não significavam nada. De fato, ela tinha pouca oportunidade para realizar obras. O cristianismo virou tudo isso de cabeça para baixo. Na verdade, o cristianismo começa com a Virgem Maria, que tem sido reverenciada acima de todos os outros seres humanos. Os cristãos exaltavam as mulheres como heroínas do seu grande épico, os Atos dos Mártires. E a Igreja promovia a liberdade vocacional das mulheres. De repente, surgiu uma classe de mulheres, as virgens e viúvas consagradas, que se declararam independentes de qualquer coisa que um homem terreno tinha para oferecer. Isso foi revolucionário. Isso fez da Igreja o que ela é. Isso assustou o mundo pagão e selou o seu fim.

Hoje, a Igreja é acusada de travar uma “guerra contra as mulheres”, porque se opõe à contracepção. As mulheres da Igreja primitiva demandavam a contracepção?

Não! As mulheres greco-romanas eram oprimidas pela contracepção, oprimidas pelo aborto, oprimidas pelo infanticídio. Essas três práticas vinham como um pacote único. A menos que algo radical mude na nossa sociedade, logo teremos todos os três juntos de novo. A maioria das pessoas não sabe que a contracepção era uma prática comum no mundo antigo, e os métodos eram provavelmente muito eficazes. E os métodos também não eram tão diferentes do que se oferece em nossos supermercados e farmácias. Havia os métodos de barreira e abortivos. Os primeiros escritos cristãos se referem a eles e condenam a todos.

A contracepção, então como agora, mutila as mulheres. Ele faz com que elas sejam menos do que são, de modo que elas possam servir de brinquedos de ninar para os homens. Na Roma antiga, o controle da natalidade era um componente essencial em uma cultura pornográfica que objetivava as mulheres. Também era uma forma lenta de suicídio cultural. Os romanos estavam acostumados a um estilo de vida sem amarras, sem se incomodar com obrigações como filhos ou fidelidade conjugal. Assim, os casais não podiam ser persuadidos nem mesmo coagidos a se reproduzir. Isso desempenhou um papel de destruição demográfica sobre o império, com consequências terríveis para a economia para a segurança interna.

E o que era ruim para o império era pior para as mulheres. Em uma economia ruim ou em uma guerra, as mulheres muitas vezes sofriam primeiro e pior. Lembremo-nos do que uma cultura contraceptiva faziam com as suas mulheres. Lembremo-nos que essas mulheres eram pressionadas a assistir, um após o outro, os seus filhos serem afogados ao nascer. As mulheres queriam sair desse mundo. O cristianismo oferecia a única forma de libertação das mulheres.

Há alguma mensagem especial que podemos extrair desse livro?

Para as mulheres: conheçam essas ancestrais mais antigas na fé. Elas ainda são modelos de feminilidade. Elas ainda são intercessoras. Como irmãs como elas, a irmandade é realmente poderosa. Para os homens: respeitem as mulheres da sua vida. Deixem-nas ser para vocês o que Marcela foi para Jerônimo, o que Mônica foi para Agostinho, o que Macrina foi para Gregório de Nissa. Em Cristo, não há homem nem mulher. Nenhuma dessas mulheres antigas foram sacerdotisas. Elas não precisam ser. Elas foram mães – mesmo aquelas que nunca tiveram filhos em seus próprios corpos. Elas ainda estão sendo nossas mães hoje.