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Igreja Anglicana celebra em Natal união com noivos divorciados

JÉSSICA PETROVNA / NOVO jornal

JULHO 30, 2017

Nadja Maria e André Luis: acolhidos pela Igreja Anglicana

 “Venho de uma família de tradição católica apostólica romana, onde fui batizado e sempre frenquentei às missas, mas isso não significa que eu concordo com todos os dogmas que são ensinados no catolicismo”. É assim que o servidor público André Luis Fontes, 35, define sua fé e conta de onde veio o interesse em se casar na Igreja Anglicana, vertente inglesa do cristianismo que segue ritos semelhantes mas desconstruiu algumas regras da outra.

André descobriu a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil quando decidiu contrair casamento com a administradora Nadja Maria da Rocha, 39, que também é católica e vivia em um impasse: já era divorciada, mas não queria abrir mão da cerimônia religiosa em sua segundao nupcias, algo não permitido pelo Vaticano.

Outra questão que preocupava os noivos era o desejo de realizar uma cerimônia simples, que fosse celebrada em lugar aberto e durante o dia, mas sem abrir mão das bênçãos do sacerdote.

Dentro das tradições do catolicismo, um casamento religioso entre Nadja e André seria impossível, já que, pela cartilha da igreja, pessoas divorciadas não podem se unir novamente nem se realiza cerimônias fora do templo religioso.

Foi durante os preparativos para a festa e em meio aos conflitos que preocupavam o casal, que Nadja e André descobriram a Igreja Anglicana no stand de uma feira de noivas. Foi nessa vertente do cristianismo que o casal encontrou uma forma de se unir pela lei de Deus e em consonância com o histórico dos próprios noivos.

Nadja relembra da celebração realizada em maio passado emocionada e conta que não consegue assistir o vídeo da cerimônia ou ver as fotos sem chorar. Ela conta que, ao pensar sobre o casamento, não se sentia acolhida dentro da tradição católica e que “não entendia como uma boa filha podia ser excluída dentro da igreja”. O acolhimento que esperava da religião, Nadja afirma que encontrou na vertente anglicana.

Além da possibilidade de ter um casamento religioso mesmo sendo divorciada e de realizar a cerimônia em um espaço aberto, o casamento teve outras particularidades, como a história do casal sendo recitada em cordel e a noiva entrando na igreja antes do noivo. “Todos os nossos amigos saíram do casamento dizendo que a cerimônia tinha sido a nossa cara. Eu não poderia ter feito uma escolha mais feliz”, relata Nadja Maria.

Ela conta ainda que desde o casamento, realizado em maio deste ano, a gravidez do primeiro filho do casal e os compromissos com trabalho a impediram de continuar frenquentando a igreja, mas que pretende voltar para batizar o seu filho e frequentar às missas anglicanas.

Assim como Nadja e André, diversos outros casais buscam essa vertente cristã no momento de planejar o casamento ou cultivar a fé nas celebrações religiosas rotineiras.

De acordo com o reverendo da Igreja Anglicana em Natal, Gecionny Pinto, 36, os principais motivos para os casais procurarem o anglicanismo são a vontade de casar em espaços abertos, um dos noivos ser divorciado ou a disparidade religiosa entre os noivos.

A igreja realiza cerimônias inter-religiosas, já tendo unido, por exemplo, católicos a espíritas e umbandistas a evangélicos. Nessas celebrações, por sinal, o reverendo da Igreja Anglicana pode atuar em conjunto com representantes da outra religião.

“Já celebrei casamentos com palestrantes espíritas e com pastores evangélicos, por exemplo. Nesses casos, a leitura da bíblia pode ser intercalada à leitura de textos de outras religiões”, exemplifica o reverendo Gecionny Pinto.

Gecionny Pinto, reverendo da Igreja Anglicana em Natal

Sonhava em ser sacerdote, mas sem aderir ao celibato

A relação do reverendo Gecionny Pinto com a Igreja Anglicana começou em 2001, quando estudava História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e descobriu que a capela da instituição realizava tanto missas católicas como anglicanas.

Gecionny conta que desde a adolescência sonhava com o sacerdócio, mas não conseguia conciliar isso à vontade de casar e constituir família. “Eu queria muito ser sacerdote da igreja, mas não acreditava que conseguiria passar pelo celibato”, relata.

Por causa desse impasse, o sonho do sacerdócio foi esquecido ao longo de sua adolescência até que, em 2001, Gecionny conheceu a Igreja Anglicana e descobriu que a vertente aceita que reverendos contraiam casamento. Nessa época, começou a se dedicar a igreja e estudar teologia e, desde 2011, é pároco da igreja em Natal.

Para ele, o anglicanismo pode ser definido como “um catolicismo aberto à modernidade”. Como principais diferenças entre a sua fé e a Igreja Católica Apostólica Romana, Gecionny Pinto cita o acolhimento que os noivos recebem para casar onde se sentem mais a vontade; a permissão para o casamento de sacerdotes, a presença de mulheres no sacerdócio – madres e bispas – e o avanço nas discussões sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

De acordo com ele, em outros países, como o Canadá, o casamento entre pessoas do mesmo sexo já é uma realidade, mas o reverendo é livre para aceitar fazer as cerimônias ou não. No Brasil, o tema ainda está sendo estudado, mas precisa da aprovação de maior parte dos representantes da igreja.

O reverendo também destaca o posicionamento crítico da Igreja Anglicana frente a questões políticas e sociais, como as reformas trabalhista e da previdência. “A Igreja entende que essas reformas vão prejudicar os setores menos favorecidos da sociedade, enquanto os privilegiados do Executivo, Legislativo e Judiciário não serão afetados”, defende.

Sobre esses temas, a episcopal brasileira publicou uma carta aberta em abril deste ano. No documento, a reforma da previdência é apontada como impacto “desumano” para a Previdência Social Brasileira. Sobre a reforma trabalhista, a carta ressalta que “a prevalência do acordado sobre o legislado” aponta para consequências como o “enfraquecimento da remuneração do trabalho e de expansão das formas informais e ilegais de contratação”.

Outra atuação da episcopal brasileira em questões sociais de ampla discussão foi o lançamento de duas cartilhas: uma de combate a violência contra a mulher e outra sobre direitos, gênero e diversidade sexual.

Apesar do engajamento em causas sociais, Gecionny ressalta que o mais importante a dizer sobre o anglicanismo é que tem como principal característica “a humanidade”.

“As pessoas são humanas e não adianta forçar ao outro um discurso de perfeição porque ninguém é perfeito. Jesus não fez acepção de pessoas, ele acolhia as pessoas e é isso que queremos reproduzir. Se uma pessoa tiver que mudar algum comportamento, acreditamos que esse processo tem que ser natural e não a partir de uma imposição da igreja. Vivemos em um momento de muita intolerância e, frente isso, nossa ideia é acolher todas as pessoas”, destaca.

Rei Henrique VIII promove a reforma em 1534

De acordo com Gecionny Pinto, a vertente do cristianismo surgiu ainda no século II, mas um dos fatos históricos mais marcantes para a religião foi a separação entre as igrejas Católica e Anglicana. O episódio aconteceu em 1534 e ficou conhecido como Reforma Anglicana.

Na época, o então rei da Inglaterra, Henrique VIII, mudou a religião oficial do país porque o papa se recusava em aceitar a anulação do casamento entre ele e sua primeira esposa, a rainha espanhola Catarina Aragão.

A Reforma Anglicana transformava a Inglaterra em um país cuja religião oficial seguia ritos similares ao catolicismo, mas a representação máxima da igreja era a figura do monarca e não a do papa. Hoje, a rainha Elizabeth II é considerada chefe política da Igreja Anglicana na Inglaterra e, apesar de não interferir diretamente nas decisões das paróquias brasileiras, é a anglicana mais famosa no mundo. A maior liderança espiritual da Comunhão Anglicana é o Arcebispo de Cantuária, atualmente, Sua Graça Dom Justin Welby.

No Brasil, a Igreja Anglicana chegou por volta de 1808, mas, a princípio, era exclusiva para os ingleses que viviam no país, segundo informações do historiador e reverendo Gecionny Pinto.

Apenas em 1890, em Porto Alegre (RS), começaram a surgir as primeiras igrejas anglicanas voltadas para brasileiros. Ainda de acordo com o reverendo, a abrangência do anglicanismo no Brasil ainda está muito concentrada na região Sul, que conta com três dioceses da igreja.

No entanto, para o reverendo, “a igreja anglicana não tem o objetivo de converter membros de outras religiões ou se expandir, mas ser uma presença de Deus na vida das pessoas que, por algum motivo, não se sentem acolhidas em suas próprias igrejas”.

Em Natal, a religião chegou há cerca de 20 anos em uma missão da Diocese Anglicana do Recife, a única presente no Nordeste.

A paróquia da Igreja Anglicana em Natal fica localizada na Avenida Senador Carlos Alberto, bairro Nossa Senhora da Apresentação, Zona Norte da cidade.

Também são realizadas missas no Lar da Vovozinha, organização sem fins lucrativos que cuida de cerca de 40 idosas na capital.

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