Secretário Geral visita Diocese Anglicana do Recife

Por Francisco de Assis da Silva

Uma calorosa acolhida foi dispensada ao Secretário Geral da IEAB durante sua passagem pela diocese no último fim de semana. No sábado, nas dependências da Catedral, reuniu-se o clero e ministros pastorais da diocese para uma conversa sobre a atual conjuntura provincial e seus avanços e dificuldades.

clero e SG reunidos

Foi feito um resgate histórico do crescimento da Igreja Provincial e se partilhou a importancia dessa interdependência entre as esferas locais (paróquias e comunidades) e as esferas diocesana e provincial.
Falou-se sobre a importância da solidariedade entre as instãncias, tomando como mais recente exemplo a contribuição de paróquias, dioceses e pessoas no apoio à reposição do mobiliário e equipamentos de som da Paróquia da Trindade em Ariquemes.

O Secretário Geral e a Revda. Lilian Silva expuseram como será a Campanha da Quaresma e motivaram as lideranças diocesanas a se engajar nessa Campanha. A Campanha será lançada nos próximos dias para todas as comunidades da Provincia. Outro item da agenda foi uma rica conversação sobre os meios de comunicação da Igreja, especialmente o Estandarte Cristão. Ficou o compromisso de envio para as comunidades dos dois últimos exemplares de nossa revista para estimular mais assinaturas na âmbito da diocese.

celebração d. helder

O Secretário Geral acompanhou o bispo D. Sebastião e sua esposa Madalena Soares nas celebrações realizadas no sábado à tarde em homenagem ao Centenário de nascimento de D. Helder Câmara. Vinte bispos e oitenta padres participaram de uma emocionante celebração com a presença de mais de mil pessoas entre fiéis, autoridades e representantes ecumênicos. Nesta ocasião, foi lançado o sêlo em homenagem ao denominado Pastor da Paz.

catedral ss trindade

No domingo, a agenda do Secretário Geral incluiu a participação nos dois ofícios na Catedral da SS Trindade. Um belo templo construido com muita paixão pela comunidade (foto) Pela manhã, o bispo D. Sebastião presidiu a Eucaristia e reflexão foi conduzida pelo Deão Sérgio Andrade. À tarde, diante de uma congregação composta em sua maioria por jovens, a celebração foi presidida pelo Deão. Em sua fala às duas congregações, o Rev. Francisco de Assis lembrou a fidelidade daquela comunidade e sua liderança firme na superação dos tristes episódios que abalaram a todos nós. Lembrou também que na tradição anglicana os laços que unem as comunidades locais, suas dioceses e a Província ajudam a compor a autêntica interdependência de dons e de serviço para o testemunho eficaz do Evangelho.
Um grande destaque nestas duas celebrações foi a instituição de um novo ministério para crianças através do projeto chamado Nova Geração que inclui um atualizadíssimo currículo voltado para as crianças e que inclui além de estudos da Bíblia uma formação em meio ambiente, gênero e corporalidade.
Outra ênfase que está sendo afirmada é a da formação com a realização de cursos para leigos e lideranças paroquiais em torno de temas como liturgia, teologia e história da Igreja.
Uma visita que certamente mostra para toda a Igreja provincial como a diocese do Recife, mesmo em meio a seus grandes desafios está construindo com muita maturidade e com muita esperança o seu futuro.

O Rev. Cônego Francisco de Assis da Silva é o Secretário Geral da IEAB

CARTA PASTORAL DA QUARESMA – DOM SEBASTIÃO ARMANDO

Dom Sebastião Armando - Bispo Diocesano 

CARTA PASTORAL DE DOM SEBASTIÃO ARMANDO, POR GRAÇA DE DEUS E ELEIÇÃO DO POVO, BISPO DA IGREJA DE CRISTO NESTA DIOCESE ANGLICANA DO RECIFE, POR OCASIÃO DA QUARESMA 2009, SOBRE O MISTÉRIO PASCAL 

Ao Reverendo Clero, ao Ministério Pastoral Auxiliar,

Às Lideranças Leigas e a todo o Povo da Igreja,

PAZ e ESPERANÇA EM CRISTO 

Iniciamos o tempo de preparação para celebrar a Páscoa e a liturgia, através das leituras bíblicas da Quarta-Feira de Cinzas, já nos situa no centro do mistério pascal: impotência de morte e poder de ressurreição. É mediante esse mistério que se revela a identidade de Jesus e a nossa. 

O texto do Evangelho segundo São Marcos (cf. Mc 6, 1-6)  apresenta-nos Jesus que volta a sua terra natal para anunciar o Reino de Deus e operar os sinais de sua chegada. Sinais que em outros lugares os evangelhos descrevem inspirando-se nos salmos e nas profecias: “Cegos recuperam a vista, coxos andam, leprosos ficam limpos, surdos ouvem, mortos ressuscitam, pobres recebem a boa-notícia” (Lc 7, 22). São esses os sinais que Jesus faz, de restauração da obra criada por Deus, da integridade das pessoas. Se reinterpretamos esses sinais com a ajuda da própria catequese dos evangelistas, somos levados a dizer: Quem não via passa a ter visão, gente paralisada agora caminha com os próprios pés, pessoas excluídas e julgadas indignas de estar entre nós são restauradas e incluídas, quem não ouvia agora é capaz de escutar, quem estava morto tem nova vida, aos pobres é anunciada a boa-nova de sua dignidade — sinais que afetam os corpos, as emoções e a intimidade espiritual mais profunda das pessoas. Pelas mãos de Jesus se comunicava uma energia de transformação das pessoas e de sua circunstância (cf. Mc 1, 21-28; 3, 1-6; Lc 4, 16-21).  

E qual é a reação? Não se espera que esses sinais sejam possíveis. São gestos surpreendentes, são milagres só possíveis a Deus, como anunciavam, por exemplo, o Salmo 136 e a profecia de Isaías 35. Só Deus pode operar essas maravilhas. Ora, Jesus aparece como homem comum: “Não é o carpinteiro, o filho de Maria… seus irmãos e irmãs não vivem aqui conosco?” Sentem-no próximo demais, parecido com qualquer um deles e delas e não creem n’Ele. Na verdade, não creem n’Ele porque não creem em si mesmos e por isso os milagres não acontecem: “Se alguém, sem duvidar por dentro, mas crendo que se cumprirá o que diz, disser a este monte que saia daí e se atire ao mar, isso acontecerá” (Mc 11, 23).

Não é assim que se dá frequentemente conosco? Quem disse que nós, “carpinteiros de Nazaré”, podemos transformar o mundo? Não é ilusão pensar que possamos influir para que pobres tenham dignidade? Para que quem não vê recupere a visão e enxergue a vida com seus próprios olhos? Quem disse que podemos ajudar pessoas a caminhar com os próprios pés? Seremos porventura capazes de abrir ouvidos que escutem o anúncio de novo tempo? Como poderíamos levantar da morte quem jaz no abatimento, na opressão e humilhação? Como teríamos poder de incluir essa multidão de gente excluída que nos cerca e nos ameaça a cada dia, “leprosos” de hoje em dia? 

Conhecemos o capítulo sexto do Evangelho de São Marcos. Somos exatamente como os parentes e os discípulos de Jesus. Quando os convida a providenciar pão para a multidão faminta que o seguia há dias sem ter o que comer, a resposta vem imediata, exatamente como a nossa: “Só se tivéssemos muito dinheiro para comprar pão para toda esta gente”. Só se fôssemos ricos, só se tivéssemos poder político… O evangelista ironiza e, de propósito, retrata, imediatamente antes dessa cena, o banquete no palácio do rei Herodes, quando se juntam os poderosos e ricos da Galiléia e decidem matar João Batista, o profeta que fala em nome da dignidade do povo. A ironia do Evangelho é perguntar-nos: Como se pode esperar a solução justamente de quem é a causa do problema? Como esperar que ricos e poderosos cuidem do povo, se são eles os seus exploradores? Hoje equivaleria a pensar que os 20% que usufruem de 80% da produção mundial, espontaneamente, se decidissem a partilhar com o bilhão de pessoas que passam fome e com os outros seis bilhões que vivem às voltas com o necessário. Os sinais da transformação são milagres, a prova disso é que depois de dois mil anos a partilha do pão ainda não acontece no mundo. Pois, milagre é o que não é “normal”, o que não se espera possível, operado por quem parece que nada é e nada pode. Jesus, lucidamente, não espera que a solução venha dos poderosos, e por isso, com tranquilidade, volta-se para o grupo que o rodeia e ordena: “Deem-lhes vós mesmos de comer, ide ver quantos pães tendes, organizem o povo em grupos…” (Mc 6, 37-39). O pão se distribui, dá-se a partilha e toda a multidão fica saciada. No Evangelho de São João chega-se a dizer que quem oferece os pães é uma criança pobre, pois são de cevada, o pão preto dos pequenos da sociedade.  

Os conhecidos da terra natal de Jesus não o recebem por julgá-lo muito parecido com eles. Os discípulos não se sentem capazes de ajudar na transformação da sorte do povo porque não têm nenhum poder, nem têm dinheiro. Nós, como eles, continuamos a crer nos poderosos. Julgamos ingênuo crer em nós e não nos damos conta da ingenuidade de crer em quem nos oprime, como zomba de nós o Apóstolo São Tiago em sua carta: “Vós prestigiais justamente quem causa vossa opressão” (cf. Tg 2, 1-7).

Em sua maneira irônica, o evangelista Marcos nos diz em seguida que também no palácio de Herodes Jesus não é reconhecido (cf. Mc 6, 14ss). Diziam que n’Ele se manifestava a energia de outrem: ou de Elias, ou de algum profeta antigo, ou de João Batista. De qualquer forma, sugere o evangelista, a questão é a mesma, pois Elias foi perseguido, como também os outros profetas, João fora condenado à morte fazia pouco tempo… não se espera e não se deseja que do meio do povo, de nós, se levante quem se disponha a operar sinais da transformação.  

Ao associar a rejeição de Jesus por seus compatriotas, a mentalidade de impotência dos discípulos e a rejeição por parte dos poderosos, o Evangelho quer-nos confrontar com nossa própria alienação. Na verdade, debaixo do peso da ideologia dominante, também nós não cremos que a transformação seja possível. Sobretudo não cremos que possamos ser nós os agentes da transformação. É o que o saudoso e querido educador Paulo Freire chama de “introjeção do opressor no oprimido”. Vamos sendo dirigidos pela ideologia dos poderosos, pois “numa sociedade de dominação, as idéias dominantes são as da classe dominante”. Não cremos em milagres, continuamos a crer no poder do mundo e no dinheiro, isto é, nos ídolos, pois na Bíblia a idolatria é a sujeição ao Poder e ao Dinheiro. Ouro e prata e os impérios são os deuses contra Deus (cf. Is 2, 18-2; 31, 7-9; Jr 10, 1-10; Sl 135, 15-21; Dn 1, 31-45; Mc 12, 13-17—é na moeda que está esculpida a imagem—o ídolo – do imperador; Ap 18, 9-24).

Ora, “a loucura de Deus é mais sábia que os homens, a fraqueza de Deus é mais forte que os homens (…) Deus escolheu os loucos, os visionários do mundo, para confundir os sábios, Deus escolheu os fracos do mundo para humilhar os fortes, Deus escolheu os plebeus e desprezados do mundo, os que nada são, para anular os que julgam ser alguma coisa ” (1Cor 1, 25. 27-28). Abraão é o modelo de nossa fé, justamente porque creu que  “Deus é capaz  de dar vida aos mortos e chama à existência o que não existe” (Rm 4, 17). Cremos realmente que essas promessas se realizem em nós? E por que somos tão descrentes do poder e da sabedoria de Deus em nós, por que somos tão omissos, por que julgamos não ter as armas para vencer a batalha contra o poder das trevas que mantém em cativeiro a obra da criação divina? Cremos ou não cremos que milagres  se operem por mãos de “carpinteiros”, de pescadores, de camponeses, de operários, de pessoas desempregadas, de mulheres, de crianças, de gente excluída, pessoas enfermas, humilhadas? 

A epístola de São Paulo aos Coríntios (cf. 2Cor 5, 20 – 6, 10) nos vem recordar nossa verdadeira identidade para que rompamos os véus da alienação: “Somos embaixadores plenipotenciários de Deus, e é como se Deus falasse (e na Bíblia “falar” é também sempre agir) por meio de nós”. E a mensagem que trazemos é uma só: Em Cristo, Deus revelou que o destino do mundo é a reconciliação. Proclamar e operar a reconciliação, eis nosso ministério como embaixadores e embaixatrizes de Deus. Somos enviados e enviadas para fazer o que não está feito e o que não se espera fazer-se. Tudo em volta parece outra coisa. A divisão e o conflito, que desagregam a obra de Deus, já começam no interior de nós, no seio da família, nos grupos que freqüentamos, na Igreja, nas relações e nas estruturas sociais. Somos enviados a operar milagres, o estupendo milagre de reconciliar a sociedade e até a própria criação. A reconciliação com Deus não só atinge os seres humanos, mas o cosmos inteiro: reconciliação da humanidade entre si e desta com a Natureza, como vemos nas epístolas (cf. Rm 8, 12-25; Cl 1, 13-23; Ef 1, 3-14). Cremos de verdade nisto? Ou para nós não passa de quimera, de ilusão, sonho ingênuo de quem se alheia da realidade? Afinal, tantas vezes dizemos, o mundo, a sociedade é o que é, que podemos fazer? É preciso jogar o jogo… Cremos em milagres, cremos no poder de Deus a operar em nós e por nossas mãos?  

Sim, porque só com o poder da fé vamos sentir-nos capazes de aceitar a embaixada que Deus nos confia. Pois muito teremos que suportar. Em nosso interior, aflições, privações, angústias (v. 4); de fora, perseguições: açoites, prisões, tumultos; pelo peso do ministério, fadigas, vigílias, jejuns (v. 5). Será preciso manter-nos com integridade, com intimidade  com a verdade (“saber” e “sabor”), com capacidade de suportar e com bondade (v. 6a). Donde nos vem a força? Do Espírito Santo, da capacidade de amar, da própria verdade que brilha pela Palavra, do poder de Deus (v. 7a). É assim que nos armamos para a batalha espiritual com as armas da Justiça em qualquer situação, de honra ou de desonra, de infâmia ou de boa fama (v. 7b-8a). Surpreendentemente, aos olhos do mundo e a nossos próprios olhos, acontece o milagre: tidos por enganadores e no entanto revelamos a Verdade da realidade; por desconhecidos, quando bem conhecidos; como se estivéssemos à morte e, no entanto, cheios de vida; sempre punidos, mas não exterminados; tendo todo motivo para tristeza, mas sempre alegres; pobres, mas com meios para enriquecer a muita gente; nada tendo, mas tudo possuindo (v. 8b-10). Exatamente o milagre proclamado nas Bem-Aventuranças.  

Sim, somos embaixadores e embaixatrizes a proclamar e operar reconciliação em pleno campo de batalha, no fogo cruzado do perigo da queda e da morte. Nossa luta é contra as potestades das trevas que se erguem arrogantemente contra Deus, para arrebatar-lhe Sua criação (cf. Ef 6, 12). É o que vemos descrito nos apocalipses, no tremendo conflito entre Deus e os poderes deste mundo. Não temos de inventar a “batalha espiritual” em nossa imaginação religiosa, com fantasias tantas vezes doentias. É na arena da sociedade humana que enfrentamos esse conflito radical entre Deus, o soberano Senhor da criação, e os poderes das trevas, tal como se deu com profetas e profetisas e com Jesus. 

O Apóstolo nos dizia que, em Cristo, Deus se revela mediante a reconciliação, e que essa se dá na medida em que somos pessoas regeneradas pela Justiça, “somos feitos justiça de Deus”. É exatamente isto de que trata o profeta Isaías (cf. Is 58). O que nos convencerá da missão, o que nos provocará e nos manterá no ministério é a experiência de que Deus se tem revelado a nós. Mas como se dá Sua revelação? No v. 9, diz-nos o profeta: Deus se revela como “Aqui Estou”, “Eu Sou”, “Eis-Me aqui”. E é isto o que nós desejamos, como se vê no v. 2: expressamos o desejo de conhecer seu caminho, achegar-nos a Deus, tê-Lo por perto. Mas estamos rodeados de obstáculos: nossos próprios delitos (v. 1) e ainda alegamos méritos, nossas obras de piedade (v.3). Ora, o profeta nos adverte, exercemos a religião, mas não transformamos nossas relações nem as estruturas na sociedade: buscamos nossos interesses, participamos do sistema de exploração, atiçamos fogo nas relações sociais, colaborando para provocar violência (v.3-4). Nossa religião vira mentira e ridículo: “mover a cabeça como junco e deitar-se na cinza”, só exterioridade, justamente o que não nos custa quase nada (v.7).

Qual o verdadeiro jejum, o ato de piedade pelo qual Deus se revela a nós? Responde-nos o profeta nos vs. 6 e 7: promover a liberdade, arrancar a canga que pesa nos ombros do povo, possibilitar a todos pão, moradia e vestimenta, ser instrumento para estabelecer harmonia e não confusão e ameaças (v.9). Só assim acontece o milagre: nossas trevas se dissiparão, seremos luz como da aurora que irrompe e brilha ao meio-dia. (v.8-9). Aí o Senhor se revela: “Aqui Estou”, e Sua glória é o que resplandece na luz em que nos transformamos. É o milagre da Ressurreição, “ao romper da aurora” (Mc 16, 2). E nossa carne, nossa fragilidade, se torna sadia e gloriosa. Antes, porém, o profeta cuida em recordar: “Se não te fechares a tua própria carne”, falando de nossos semelhantes necessitados. Finalmente, algo tremendamente atual: a renovação da sociedade vem descrita com imagens que associam a transformação social com a sobrevivência física e a Natureza paradisíaca (v.11-12), intuição de que o bem-estar das pessoas tem tudo a ver com justiça econômica e social, e com o que hoje chamamos de meio-ambiente (Ecologia). 

Iniciamos a Quaresma com o gesto penitencial das cinzas. Somos pó, somos terra, como nos lembra o belo Salmo 103. Oh, quanta penitência temos de fazer por todo o mal que, como sociedade humana, temos causado à terra! Na verdade, sem nós a terra pode manter-se e viver. Sem ela, porém, nós é que nada somos. Somos terra, dela viemos e a ela retornaremos. Nossa carne é feita de terra – somos “adam”, terrestres, feitos de “adamá”, terra (cf. Gn 2, 7). Quanta arrogância, causa do desastre que temos causado às fontes da vida no planeta! Não poderá ser esta nossa penitência quaresmal? Avaliar e mudar atitudes e comportamentos de dominação: as outras pessoas e toda a terra são nossa carne. Em que temos de mudar, concretamente, já a partir do dia-a-dia e até nossa participação no cenário público da sociedade? Em que temos de nos converter da omissão para que a vida seja salva e cuidemos amorosamente de todos os seres como irmãos e irmãs, como nos ensinava São Francisco? Que paradoxo, nossa alienação: para dominar, oprimir e degradar, sentimo-nos cheios de poder, para transformar atitudes, relações e estruturas sentimo-nos impotentes!

Que o exemplo de Jesus nos convença! Que o Espírito Santo nos unja com poder para que sejamos capazes de operar o milagre da transformação deste mundo! Nossa “humildade”, isto é, a lúcida consciência de que brotamos do “humus” da terra, será a fonte de nosso poder de transformar. O Sopro de Deus em nós poderá trazer novo alento a toda a criação. Sim, porque se estivermos em Deus, teremos poder de “transportar montanhas”, de “querer o impossível”, como dizia a juventude de 1968 e “outro mundo será possível” com a graça de Deus… 

+ Sebastião Armando, Recife

25 de Fevereiro de 2009

Quarta-Feira de Cinzas  

Recomendação: Esta Carta Pastoral seja divulgada e seu conteúdo estudado em todas as nossas congregações de acordo com as oportunidades e condições locais.

+ Sebastião Armando, Recife   

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO

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“Em Cristo somos muitos membros mas um só corpo”
Preparado pelo comitê do Dia Mundial de Oração em Papua Nova Guiné.
 
O DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO é um movimento que reúne mulheres cristãs de todo mundo e de muitas tradições, para observar um dia comum de oração por ano.
 
É um movimento que iniciado por mulheres em 1887 e realizado em mais de 170 paises e regiões
É um movimento que aproxima mulheres de várias raças, culturas e tradições.
 
Através do DMO, mulheres de todo mundo:
Afirmam sua fé em Jesus Cristo;
Compartilham suas esperanças e temores, suas alegrias e tristezas, suas oportunidades e necessidades.
 
Através do DMO, mulheres são encorajadas:
A se conscientizarem do que acontece no mundo e não a viverem isoladas;
A se enriquecerem com experiências de fé vividas por cristãos de outros paises;
A reconhecerem seus dons e talentos e usá-los em benefício da comunidade.
 
Através do DMO, as mulheres reconhecem que a oração e a ação são inseparáveis e que ambas têm incontestável influência no mundo.
Mensageiro: Pastor Carlos Queiroz (Diaconia) 
Dia 06/03/2009 (sexta-feira)
Local: Catedral Anglicana da SS Trindade
Rua Alfredo de Medeiros, 60 – Espinheiro
(próximo ao Supermercado Comprebem da Av. João de Barros)
Horário: 19h30
 
Igrejas e movimentos parceiros do DMO em Recife para a celebração em 2009:
 

Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB)
Exército de Salvação
Igreja Menonita
Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB)
Igreja Epsicopal Anglicana do Brasil (IEAB)
Igreja Apostólica Católica Romana (ICAR)
Igreja Evangélica Congregacional
Movimento Focolari
CEBI – Centro de Estudo Bíblicos
Fórum de Reflexão e Ação Diaconal (FRAD)
AFIC – Associação Fraterna de Igrejas Cristãs
 

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

‘OUTRO MUNDO É POSSÍVEL’ 

Dom Sebastião Armando 

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Madalena e eu estivemos em Belém do Pará. A bonita cidade amazônica tornava-se  capital da sociedade civil  mundial, território ocupado por cerca de quase cento e cinquenta mil pessoas, vindas de mais de cento e trinta países do mundo, pessoas físicas e organizações de todos os continentes, inclusive da Oceania. Emocionante constatar a presença de mil e novecentos representantes de povos aborígenes e de quase mil e quinhentos quilombolas. 

Estávamos numa terra habitada há pelo menos quarenta mil anos, com civilizações conhecidas, que já habitavam o baixo Amazonas há quase dez mil anos . Árvores, águas, espécies animais e abundância de frutas nos davam facilmente a sensação de estar muito perto do paraíso. É de lá que corrrem 26% da água doce que se lança nos oceanos, o que equivale a vinte bilhões de toneladas de água por dia. É lá que residem 20% das espécies vivas do planeta e ainda sobrevivem duzentos povos com suas línguas nativas. Em cada hectare de terra há mais biodiversidade que em qualquer outra parte do planeta. Em 10 hectares são mais de dez mil espécies de vida vegetal e animal. 

Mas tínhamos também a sensação de que o inferno é bem ali, avança implacável. Numa terra encharcada d’água, onde chove todo dia, na própria capital trezentas mil pessoas ainda não têm acesso a água tratada, praticamente um quarto da população. Só 3% dos esgotos recebem tratamento. São vinte mil quilômetros quadrados de mata devastada por ano, o equivalente ao estado de Sergipe a cada ano, um verdadeiro ecocídio. Por dia circulam três mil e quinhentos caminhões com madeira ilegal, o que contribui para fazer do Brasil o segundo maior exportador de madeira do mundo, só perdendo para a Indonésia. Em quarenta e sete anos, faz-se a conta de setenta milhões de hectares devastados. A agricultura e sobretudo a pecuária avançam sem piedade, sob o olhar omisso ou cúmplice das autoridades, as quais até se apressam em mudar as leis para facilitar essas atividades predatórias.

 

O governo do Estado acolhia as visitas com vistosos cartazes de boas-vindas e anunciava aquilo que o Pará deseja efetivamente ser, “Terra de Direitos”. Sabemos muito bem que por lá, em muitos aspectos da vida do povo, “o Estado é quase inexistente”, como diz muita gente que escutamos. Baste pensar na grilagem de terras, na devastação das florestas, na violação das terras, das águas e das vidas dos povos aborígenes, na perseguição e assassinato de quem defende o povo, como o recente caso de Irmã Dorothy… O Pará é um dos estados mais violentos do país.   

Belém se tornava espaço aberto para que pessoas e organizações do mundo inteiro se encontrassem, partilhassem experiências e sonhos, se articulassem em torno de novas propostas e iniciativas. Território livre, aberto que fazia possível conversar. Sim, para isto é que nasceu o Forum, para possibilitar a conversa de gente que sonha e trabalho por “outro mundo possível”, aquela gente que Dom Helder Camara gostava de chamar de “minorias abraâmicas”, que “esperam contra toda esperança”. Não é acaso que o Forum tenha nascido da conversa “informal” de dois crentes: um, empresário judeu, Oded Grajew, outro, cristão, Francisco Whitaker. A conversa tem a força de irradiar boas notícias, animar pessoas a prosseguir no caminho, informar sobre a gravidade dos problemas, ajudar a achar saídas … As inumeráveis viagens de Dom Helder pelo mundo inteiro, por anos, ao encontro de “minorias abraâmicas” têm muito a ver com o nascimento do Forum. Seu sonho era justamente que se encontrassem e se articulassem pessoas de todas as classes sociais, de todos os credos, de todos os países para que daí pudesse surgir uma “conspiração” mundial pela Justiça e a Paz. Por isso foi a palácios de reis e governantes, de magistrados e de parlamentares. Visitou universidades, Igrejas, congressos de religiões. Esteve com jovens, com trabalhadores, com empresários, com homens e mulheres onde quer que percebesse uma chama de esperança. Sem dúvida, era a semente da profecia, o embrião do mega-evento que hoje é o Forum Social Mundial. 

Muitos foram os foruns paralelos. Nós estivemos, primeiro, no de Teologia e Libertação; depois no Forum Ecumênico das Águas,  promovido pelo CONIC; finalmente no Forum Social. A delegação da IEAB era significativa e encabeçada pelo Bispo Primaz. Lá estava um quarto de nosso episcopado (em termos católico-romanos era como se lá estivessem mais de cem bispos). Unimos participação no Forum com o contacto com o povo da Diocese Anglicana da Amazônia e a descoberta da beleza de Belém e entorno. 

Falou-se de “Ecossocialismo”. Um imenso pavilhão homenageava os 50 anos da heroica resistência do povo de Cuba. Em todas as pessoas parecia disseminada a idéia de que já não teremos futuro se prosseguimos debaixo dos padrões desta absurda civilização, cujo objetivo é apenas manter o bem-estar de 20% da população do mundo e aperfeiçoar cada vez mais a tecnologia, e vender e fazer consumir o cada vez menos necessário. Vinte por cento da população do mundo consomem oitenta por cento dos recursos da terra. Não importa se a fome esteja aumentando, se as epidemias proliferem, se a desertificação avence, se a biodiversidade seja agredida e cada vez mais gravemente ameaçada, se o clima se torne um problema sempre mais grave, se a revolta e a perda do sentido da vida exploda em atos de violência pessoal e coletiva sempre mais frequentes. Veio-me à mente repetidas vezes a famosa frase de Carlos Marx há quase dois séculos atrás: “Ou o socialiamo ou a barbárie”. Um crente poderia facilmente traduzir: “Ou decidimos pela comunhão, pela partilha, ou perecemos sob a barbárie”. Depois de tanto tempo, uma vez mais, a Bíblia mostra ter razão contra as arrogantes pretensões da Razão humana. Os Atos dos Apóstolos já nos diziam isso (cf. At 2, 42-47; 4, 32-37), e antes ainda, tantos séculos antes de Cristo, já os Profetas nos alertavam, intuindo que justiça econômica tem tudo a ver com Ecologia, Vida e Paz (cf. Os 4, 1-3; Gn 3, 17-19).  

Encantou-nos particularmente a visita ao navio de Green Peace   (“Verde Paz”), organização comprometida com a defesa do meio-ambiente, no mundo inteiro. Não recebe dinheiro nem de governos nem de empresas, só de pessoas físicas. São três mil pessoas que contribuem no mundo todo. E são trinta e cinco mil as pessoas voluntárias, em terra e embarcadas nos três navios. Emocionou-nos perceber o alto grau de consagração de adultos e sobretudo de jovens à causa da vida, em condições precárias, embarcados em navio de trabalho, sem conforto quase nenhum por meses. Há uma espiritualidade que os sustenta, o amor à vida e a esperança num futuro melhor, e que os compromete. Baste imaginar que tiveram de fechar o escritório de Belém porque a turma estava ameaçada de morte pelos “donos da terra”.   

Momento memorável foi o debate público com os quatro presidentes de república: da Bolívia, da Venezuela, do Equadro e do Paraguai sobre transformação social e integração do Continente. Alguns proclamam com arrogância que se trata de países menores, sem importância, gente que ainda vive de sonhos nacionalistas antiquados, sem lucidez para ver que “o mundo mudou”. Dizem até que não passam de populismos retardados, cegos para a luz da realidade “globalizada”. É difícil prever o curso do futuro. O certo, porém, é que nesses países seus povos estão a dizer uma palavra nova. Povos pobres sobem ao palco para gritar que o neoliberalismo é um fracasso, além de tentativa cínica de manter o privilégio dos ricos às custas dos explorados e excluídos. E a crise atual parece lhes dar razão. Agora são os defensores do livre mercado que estão a apelar ao Estado que os socorra e contole a Economia. Que trágica ironia! Vêm lembrar que “globalização” é farsa ideológica em proveito dos países ricos e das elites ricas dos países pobres. Os povos aborígenes mostram que nãoestão morto e avançam em sua identidade e exigências: derrubaram governos no Equador e elegem um dos seus presidente da Bolívia. Paraguai, o país onde ainda se fala oficialmente a língua guarani, não elege um dos políticos de sempre, mas um bispo católico, aliado ao Movimento da Libertação, vida dedicada à região de São Pedro, a mais pobre do país. Na Venezuela as estatísticas são eloquentes: em dez anos a miséria baixou de 20 para 9 por cento; o desemprego de 16 para três por cento; o salário mínimo  subiu de 154 para 286 dólares; a diferença entre riqueza e pobreza baixou de 28 para 18 por cento. As constituições estão sendo refeitas em vista de promover “políticas emancipatórias”, enquanto em outros arraiais  não se passa de “políticas compensatórias”…  

Os desafios são imensos. A própria vida, e não só a dos pobres, está ameaçada. Não só as Igrejas, mas os cientistas nos têm chamado à conversão: “Ou mudamos de atitude ou morreremos, e temos pouco tempo para decidir, o fim se avizinha”. Parece apelo de sermões escatológicos. Não se esperaria da Razão ocidental esse ato de humildade forçado. Com sempre mais força se proclama: Nossa prepotente vontade não pode ser a regra do universo, não somos o centro, tudo pode muito bem existir sem nós, só nós não podemos prescindir da diversidade dos seres naturais. Ou recuperamos a comunhão com todos os seres ou a Natureza se vingará de nós. Aí se revelará quem tem poder, a Mãe Terra que nos dá origem e vida, ou nós, que parecemos não passar de crianças deslumbradas com brinquedo de alta periculosidade… Finalmente, temos de ter a humildade de dizer que é preciso reaprender a conviver com a Terra, e aprender isso dos povos aborígenes e negros. Será a vingança da história? Os quase exterminados chamados a ser nossos mestres… 

Sim, os desfios são imensos. Mais impressionante, porém, é nossa imaturidade para assumir as respostas adequadas. Na verdade, como sociedade humana, já não podemos depender da vontade dos poderosos e dos governos. É em nossas mãos, da gente comum, que incrivelmente está a sorte da Vida. Mas como estamos longe de ter a capacidade de carregar o fardo que nós mesmos nos impusemos! A responsabilidade da Igreja é incomensurável nessa obra eminentemente pedagógica da reeducação para viver. Em outras palavras, nessa obra de assimilação de uma nova Ética da Vida e de uma nova Espiritualidade da Criação. Cada vez mais, é nesse campo que se vai jogar nossa fidelidade a Deus, “o amigo da vida”, como nos diz a Bíblia (cf. Sb 11, 26). Temos de passar do funesto e destrutivo horizonte do “desenvolvimento” ao novo horizonte do “envolvimento”, da compaixão e do cuidado por todos os seres do universo. Cada ato nosso, até o mais quotidiano, tem de ser cada vez mais conscientemente um ato ético, isto é, ato de responsabilidade pela vida,  de amoroso cuidado. Nossa relação com a Natureza, como se deu com São Francisco há tantos séculos atrás, tem de estar no centro de nossa fé em Deus e de nossa missão, como nos dizem as “05 Marcas da Missão” da Comunhão Anglicana. Fé no Evangelho, Serviço, Justiça e zelo pela preservação da Vida estão entrelaçados, como os vários aspectos de nossa resposta ao Deus Criador, Redentor e Consumador do mundo. Seremos capazes de suportar a “missão terrível” que céus e terra nos entregam? Se não, só nos restará sucumbir debaixo de tremendas catástrofes. Será que nada aprendemos dos dilúvios antigos? (cf. Gn 6, 8-9).

Ministério PARA A MISSÃO integral

Dom Sebastião Armando - Bispo Diocesano

APRESENTAÇÃO

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares
Diocese Anglicana do Recife
Sabemos que a tarefa da Igreja é a de ser instrumento do Reinado de Deus. Ora, segundo as Escrituras, Deus tem o propósito de revelar e estender Sua soberania sobre toda a criação (cf. Gn 1). Quando, então, falamos do Reino de Deus, referimo-nos ao mundo, à sociedade, ao dia-a-dia das pessoas, aí é que se deve realizar e manifestar o que Deus pretende para Sua obra, como o anuncia tão belamente o Apóstolo na Epístola aos Romanos, capítulo 8.
O aspecto religioso da vida, mesmo sendo o mais profundo, não é toda a vida. Tudo tem a ver com o religioso, e sobretudo com a fé, mas o religioso não é tudo. A vida tem muitos outros aspectos. O campo do religioso é onde se explicitam as perguntas e a busca pelo sentido da vida, e se experimenta a relação com o Absoluto. Mas a vida é bem mais que religião. Particularmente bem mais que as formas concretas que vão tomando nossas buscas religiosas. A vida é também economia, são relações sociais, é poder político, é produção cultural. Tudo isso, e não só a religião, tem de estar sob a soberania, o propósito de Deus e o Seu julgamento. E a Igreja de Cristo, entre muitos outros, é instrumento privilegiado para que isso aconteça de fato (cf. Ef 1).
A variedade de ministérios na Igreja deve promover o exercício desta tarefa: ajudar a criação a tornar-se cada vez mais Corpo universal de Cristo, “nova criatura”, conforme a perspectiva que se expressa claramente em Romanos 8, Efésios 1 e 2 e Colossenses 1, 15-20.
Nas “05 Marcas da Missão”, segundo a Comunhão Anglicana, nossa tarefa de evangelizar é anunciar a Boa-Nova de Cristo, chamar à conversão, batizar as pessoas e iniciá-las à vida comunitária. Mas diz-se claramente que o objetivo de tudo isso é nos prepararmos sempre mais a assumir serviços de amor em solidariedade com as pessoas necessitadas; a lutar corajosamente em vista de colaborar na transformação das estruturas injustas da sociedade; a zelar cuidadosamente pela vida na terra, conservar e renovar os recursos da criação. Como vemos na Bíblia, o grande objetivo da Igreja é que se revele finalmente a face cósmica de Cristo, a nova figura da criação (cf. Rm 8 e Ap 21).
Lamentavelmente, freqüentes vezes, a Igreja se retrai e quase se reduz aos aspectos religiosos de seu ministério. Ora, na verdade, a religião na Igreja se destina a ser só instrumento da Palavra e da obra de Deus. Não tem sentido por si mesma, é só meio a serviço da Revelação e da plena Libertação. Esquecemo-nos facilmente de que a oração, a meditação, o culto são exercícios necessários, sim, mas para nos prepararmos aos combates de Deus, que se dão, não prioritariamente no recinto dos templos, mas na arena do mundo. É essa a grande lição de toda a Bíblia. Nossa oração tem de ser como a de Jesus, “oração da vigília” que nos prepare para assumir corajosamente a tarefa profética de restaurar em nossas vidas e na sociedade a Justiça de Deus. (cf. Is 42; Lc 4, 16-21).
Entre os diversos ministérios (cf. Ef 4, 1-16), o Diaconato é particularmente uma vocação que se “ordena” a exercer um ministério “mundano”, “secular”. É o que se poderia chamar de ministério “sacramental” nas formas do dia-a-dia do mundo. Sua tarefa precípua é levar a comunidade da Igreja a inserir-se na vida do mundo, participar de seus sonhos, de suas aspirações e de suas lutas, e trazer o mundo para o interior da vida da Igreja, a qual deve estar a seu serviço. Não é nem exclusivamente, nem primariamente ministério cultual. Antes de tudo, é serviço à evangelização da sociedade, anúncio de que o mundo é de Deus e por isso para Ele deve voltar-se, converter-se. Por isso, para anunciar o Evangelho mediante gestos e palavras, assume particularmente a diaconia social e política para, desse modo, realizar os sinais do Reino de Deus, aqueles que Jesus mesmo indica no Evangelho: abrir olhos (cf. Jo 9), levantar da paralisia, incluir gente excluída, fazer ouvir novas propostas de vida, libertar das alienações, ajudar a renascer mediante vitórias sobre a morte, restaurar a dignidade dos pobres (cf. Lc 4, 16-21; 7, 18-28).
Não é por acaso que na Liturgia as funções típicas do Diaconato são aquelas que simbolizam seu ministério “secular”, de ser ponte entre a Igreja e a sociedade: liderar a assembléia litúrgica na intercessão, isto é, trazer para o coração da Igreja as necessidades e as dores do povo, sobretudo das pessoas mais necessitadas; proclamar o Evangelho para que percebamos com clareza as exigências da vontade de Deus e o testemunho de Jesus; recolher as ofertas materiais para manter a vida da comunidade e partilhar com quem é pobre e necessita; preparar a mesa do Senhor, que é sempre a mesa profética que anuncia a partilha do pão para a vida do povo, como centro de nosso compromisso de fé (cf. Mc 6, 30-44); despedir a assembléia, enviar-nos ao mundo para aí exercer o serviço de Cristo, o Diácono por excelência (cf Fl 2, 5-11), como nos ensina Santo Inácio de Antioquia. Serviço de Cristo, que visa a redimir e transfigurar o universo, imprimir no corpo do mundo “as marcas de Jesus” (cf. Gl 6, 17).
Pessoas são ordenadas diáconos e diáconas para liderar o povo cristão em duas frentes que levem a Igreja mais além das fronteiras e que são intimamente conectadas entre si: a Evangelização e a Diaconia Social e Política. Esta, sempre como primeiro passo e dimensão permanente daquela. A palavra de anúncio da Boa-Nova tem de estar legitimada por gestos significativos que manifestem o carinho de Deus na vida das pessoas, gestos que as levem a perguntar: “Em Nome de quem nos fazeis estas coisas?” (cf. At 3, 1-10). Só fomos enviados e enviadas a evangelizar. Qualquer trabalho de ação social na Igreja tem sentido na medida em que revele a presença amorosa de Deus, como de Pai ou Mãe. Na medida em que faça as pessoas experimentarem concretamente sua dignidade de filhos e filhas de Deus. Finalmente, é mediante o aproximar-se daquelas pessoas e grupos, que o mundo despreza e exclui, que a Igreja, ela mesma, se deixa evangelizar. Estar junto das pessoas crucificadas é que nos revela a Cruz de Jesus em toda a sua força e atualidade, conforme nos ensina o Apóstolo São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulos 1 a 4.
Acompanhei com interesse o trabalho do Reverendo Sílvio no projeto social no município de Araçoiaba, na zona da mata de Pernambuco, área intermediária entre o Recife e João Pessoa. Município de gente muito pobre e abandonada em meio ao “inferno verde” da cana de açúcar. Logo percebi aí uma particular realização do ministério diaconal. Não era em torno do tempo que se congregava o povo, mas em redor da urgente tarefa de resgatar a vida de pobres, que são o sagrado ícone de Cristo (cf. Mt 25, 31-46). Aparentemente não se tratava de trabalho religioso, mas era presença qualificada da Igreja como fermento na massa de uma sociedade de opressão e exclusão, como luz em ambiente de densas trevas (cf. Mt 5, 13-16). O Reverendo Sílvio não celebrou nem um culto anglicano em Araçoiaba, mas exerceu plenamente sua ordenação de diácono anglicano, pois aí estava como “ordenado”, destinado a proclamar, por gestos e palavras, a Boa-Nova de que filhos e filhas de Deus podem ser mais felizes, podem tomar posse do mundo, como co-herdeiros com Cristo da obra da criação (cf. Gl 3, 23–4,7); pode haver “vida em abundância” para todo o povo, pois essa é a vontade de Deus (cf. Jo 10, 10). Foi justamente por isso, “porque amou tanto o mundo que Deus entregou o Seu próprio Filho unigênito” (Jo 3, 16).
Quando aceitou o convite para servir na Diocese Sul-Ocidental, no Rio Grande do Sul, e se despediu de nós no início do ano de 2008, pedi-lhe que nos deixasse seu testemunho. Uma maneira de nos dizer “até logo” e nos interpelar e nos recordar da tarefa essencial que temos recebido como Igreja de Jesus. Desejo a todos e todas nós, e de maneira especial a nossos diáconos e diáconas, que nos sintamos estimulados a redescobrir o lugar e a tarefa de nosso ministério, de serviço em nome de Cristo no coração do mundo. Que ainda ressoem com força mobilizadora em nossos ouvidos e corações as famosas palavras de João Wesley, o anglicano que deu origem ao movimento metodista: “O mundo inteiro é minha paróquia”!









Ministério PARA A MISSÃO integral
(Diaconato, um olhar diferente?)
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Revdo. Sílvio Freitas*
“Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser o servo…” (Mt 20, 26)
Após partilhar com meus colegas, em um dos nossos encontros de diáconos, um pouco de minha vivência ministerial no ambiente do trabalho “secular”, recebi um convite do Bispo Dom Sebastião para ampliar esta partilha aos demais colegas de ministério. Este relato é uma simples reflexão sobre minha prática. Espero que nos possibilite descobrir alguns caminhos de solidariedade.
O trabalho secular a que me refiro é um projeto social, iniciativa de uma empresa privada em parceria com o governo municipal, onde atuava como coordenador de uma rede chamada “Envolvimento Comunitário”, trabalhando diretamente com um grupo de voluntariado.
Antes, talvez, fosse importante falar sobre minha compreensão da integralidade do ministério. Sempre achei muito complicado e esquizofrênico o dualismo a que fui submetido desde pequeno no meio religioso: o mundo “espiritual” e o “material”; “corpo” e “espírito”; “religioso” e “secular”, etc, como se fosse possível separar um do outro na vida. Entendi que alimentar esse dualismo é desconsiderar tanto a unidade do ser humano, quanto a universalidade da missão de Deus. O contato com a teologia foi libertador: percebi que o maior desafio era a harmonia, o equilíbrio. Deixei de ser um extraterrestre, aprendi a valorizar o humano como alguém que Deus ama e deseja, o corpo como um lugar onde o Amor de Deus se realiza (Rubem Alves); percebi a necessidade de uma religião que seja relevante para o seu contexto, que procure responder às reais necessidades das pessoas com honestidade (Bonhoeffer).
Sem compreender a essência do ministério de Cristo, os discípulos, representantes muitas vezes de nossas próprias consciências, discutiam entre si sobre quem seria o maior ou o mais importante entre eles. A resposta de Jesus, contrariando os anseios humanos por “poder” e “status”, revela a ordem inversa do Reino dos Céus. Assim, manifesta o que deve nortear a vida de quem se sente vocacionado ao ministério como discípulo ou discípula: o serviço.
Todo esforço para entender e vivenciar esse ministério só é possível à luz da vida e dos ensinamentos de Jesus. O paradoxo do ministério de Cristo, encarnado no Servo Oprimido e Vitorioso: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão” (Mt 20, 28), representa um dos grandes desafios de nossa atualidade, muitas vezes na contramão de Seus ensinamentos.
Nossa vocação é para o serviço. A capacitação nos vem do mesmo Espírito que ungiu Jesus para o ministério (cf. Lc 4, 16-21). Essa vocação nasce de um profundo amor pelo humano e se aperfeiçoa na capacidade de desenvolver um olhar diferente sobre a realidade, à luz do exemplo de Cristo. Jesus sempre foi um Mestre do olhar diferente, olhava além das aparências, enxergava o que havia de melhor nas pessoas. Pouco importava se para certa gente essas pessoas não passavam de pecadoras, adúlteras, prostitutas, traidoras ou cobradores de impostos a serviço dos estrangeiros dominadores. Jesus não as via assim. Quando enxergamos nas pessoas o que elas têm de melhor, estamos motivando-as a transformar sua vida. E nosso serviço em amor é capaz de transformar muita coisa da realidade na qual vivemos. Na verdade, porém, tudo começa com um novo jeito de olhar, um olhar diferente.
Pensando assim, compreendo que na prática não há distinção entre meus paroquianos e meus colegas de trabalho, pois sou igualmente interessado no bem estar de todos e na promoção de um ambiente saudável, considerando a integralidade das pessoas.
Sempre entendi que meu trabalho profissional ou social é parte integrante do meu ministério, e de modo muito natural busquei oportunidades de vivenciá-lo. Mesmo no comércio, onde geralmente são mais comuns os conflitos relacionais devido à competitividade e departamentalização, promovia encontros de vivência da espiritualidade com músicas e reflexões partilhadas. Agora percebi ainda mais claramente que o que antecede o culto é a construção de relacionamentos, a predisposição de servir e de se importar com os outros. No projeto social, porém, me surpreendi com a proporção que o meu ministério alcançou. Acredito que isso aconteceu pela natureza e o objetivo da tarefa e, principalmente, pelo trabalho desenvolvido com o voluntariado.
Comecei como instrutor de um curso de capacitação para jovens de baixa renda – Escola de Fábrica –, uma das primeiras ações do projeto. Foi o evento que marcou o início do reconhecimento de meu ministério, tanto pelos discentes e docentes, como pelo time da direção. Foi uma das experiências mais ricas de minha vida ministerial. Este sentimento ficou registrado em uma de minhas falas, quando da primeira visita do presidente nacional da organização mantenedora, tive a idéia de falar sobre a mística do curso, após a explicação de outro professor sobre a estrutura organizacional: “Uma vez já conhecida a estrutura, o formato, ou seja, o corpo do Escola de Fábrica, gostaria de falar sobre a alma, ou o espírito, o fôlego que deu movimento e vida a este inesquecível evento, pois, o que é um corpo sem um espírito que o alimente, ou um espírito sem um corpo que o realize? Então, não poderíamos deixar de falar sobre esse espírito.
Falar sobre espírito é sempre um falar subjetivo, é comentar sobre algo que não se vê, que não se pode tocar… Mas esse não é o nosso caso, tudo era bem visível… Bem cedo aprendemos que era necessário dar o que tínhamos de melhor, e que essa oportunidade seria única, jamais se repetiria, não da mesma forma… E, convivendo, aprendemos a despertar uns nos outros, o que tínhamos de melhor… As aulas eram mais do que aulas… As atividades em grupos, mais que atividades… Não era um curso comum… Todos percebiam a alegria com que nos encontrávamos todos os dias: o abraço, o beijo, o carinho, a oração, a música, a sensibilidade de perceber o outro, a solidariedade, o conselho, os puxões de orelhas… Tudo fazia parte do espírito de nossa escola, e isso nos fez olhar para vida com outros olhos. As mudanças para melhor começaram a acontecer: aumento da auto-estima, despertar de lideranças, interesse pelos estudos com melhores notas… Um de nossos coordenadores, se referia a este espírito como a “mística” do Escola de Fábrica. A esta mística, ou seja, a este espírito, chamamos “AMOR… Amor que fez deste evento uma das experiências mais marcantes de nossas vidas. Poderá vir o dia em que a distância geográfica nos afaste uns dos outros, mas nunca, nunca apagará dos nossos corações os momentos que vivemos, nem o que nos tornamos uns para com os outros”.
Foi a partir desse momento que o time da direção começou a me ver com outros olhos…
As habilidades que desenvolvemos ao longo de nossa vida eclesiástica – musicalidade, integração, sensibilização, motivação e mobilização de pessoas; reflexão sobre a realidade e solução de conflitos – são facilmente assimiladas no ambiente de trabalho, e no meu caso foram bem aproveitadas, principalmente porque uma das características do projeto é o trabalho com o voluntariado, que soma quase 500 pessoas.
Logo após o encerramento do curso Escola de Fábrica, recebi da equipe gestora uma proposta para continuar no projeto: primeiro, coordenei dois grupos de voluntários; um diagnóstico na rede de educação do município e por último a rede de envolvimento comunitário. Paralelamente às atividades administrativas, sempre era convidado para dirigir os eventos motivacionais no que se referia a música, animação e espiritualidade, bem como participava com mensagens no programa de rádio local que transmitia diariamente informações sobre o projeto.
Fazendo uma reflexão de minha vivência ministerial no ambiente do trabalho ressaltaria três principais marcas:
Música
A música foi uma grande ferramenta de integração, motivação e cultivo da espiritualidade, e uma forte marca do meu ministério. Músicas marcam momentos, grupos e pessoas, e foi isto o que aconteceu. Alguns alunos do curso Escola de Fábrica começaram a se interessar por violão, animando também o grupo. Montamos ainda um grupo de música com talentos da própria comunidade, para animar os encontros dos voluntários, com papel fundamental nos momentos de expressão da espiritualidade. Com música iniciávamos sempre nossas reuniões e encontros de coordenação, com música celebrávamos nossos resultados, fazíamos homenagens e refletíamos sobre a realidade. Em sua maioria eram músicas gospel e outras, populares com letras significativas para o contexto.
Espiritualidade
O que passamos a chamar de “momentos de espiritualidade” tinha o principal objetivo de fazer as pessoas perceberem Deus no que realizavam. Acredito que o objetivo do projeto – melhorar a qualidade de vida das pessoas – tem tudo a ver com a missão de Deus. Era preciso fazê-las entender que sua movimentação para o outro é movimentação para Deus, pois Ele se identifica com o necessitado e excluído, e que é possível encontrá-lo no que vivenciamos, ou no que podemos vivenciar diariamente. A missão de Deus é também melhorar a qualidade de vida das pessoas, e “vida em abundância”. A missão de alfabetizar voluntariamente, de casa em casa, ajudando pessoas a recuperar sua auto-estima, bem como a oportunidade que uma vida inteira lhes negou quando crianças, fazendo-as acreditar que é possível, e que ainda é tempo de viver coisas novas, é Evangelho. A luta pela vida, trabalhando para a erradicação da mortalidade infantil no seu município, visitando famílias, levando informações de saúde, identificando e encaminhando crianças para o centro de tratamento, é Evangelho. As mensagens lidas no programa de rádio também tinham essa conotação, de uma espiritualidade encarnada e inserida nas coisas e pessoas do cotidiano.
Afetividade
Penso que cultivar a afetividade foi a marca mais importante do meu ministério, e que abriu espaço para as demais. Meus colegas de trabalho tornaram-se alvo do meu cuidado e ação pastoral. Cultivamos um ambiente de afetividade: conhecíamos as histórias e participávamos das dificuldades e conquistas de cada pessoa; cuidávamos uns dos outros; procurávamos resolver os nossos conflitos com humildade, transparência e honestidade. O resultado foi a construção de relacionamentos sólidos. Isso só é possível quando se gosta de gente, não só de gente como a gente, mas de gente com os mais variados humores e temperamentos. Quando estamos interessados em ajudar, atento às necessidades, quando aguçamos a escuta e o olhar, e amadurecemos nossa capacidade de amar incondicionalmente. Fico surpreso e entusiasmado quando leio artigos ou livros, fora dos domínios da religião, falando com tanta propriedade deste tema: “Sem amor não é possível reinventar e reencantar nenhum mundo, nenhuma sala de aula… Nós precisamos da pedagogia do amor… Somente no dia em que aprendermos a amar total e incondicionalmente é que receberemos um certificado de humanidade plena.” (PEDAGOGIA INICIÁTICA – Educar para Ser, Roberto Crema). Acredito que cultivar a afetividade é uma atitude catalisadora de transformação.
Enfim, ter a oportunidade de vivenciar meu ministério diaconal, especialmente no projeto social onde tomou maiores proporções, foi uma das maiores realizações da minha vida. Comentava com meus colegas de trabalho que me sentia como um jogador profissional de futebol, ganhando a vida fazendo o de que gosta. Penso que a realização maior é sentir-se parte de um processo de transformação mais amplo. Ficava muito emocionado quando escutava os depoimentos entusiasmados de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela oportunidade de um novo aprendizado através de um curso profissionalizante ou da alfabetização, pessoas recuperando sua auto-estima, pessoas despertando para uma espiritualidade mais encarnada, pessoas felizes pelo simples fato de poder ajudar as pessoas e sua comunidade. É claro que tudo não é um mar de rosas, presenciamos também atitudes que estão longe do processo de transformação, temos que respeitar os passos de cada pessoa, e entender que um processo de contracultura é geralmente lento, e deve ser administrado com serenidade e sabedoria. No final de tudo fica um misto de dever cumprido e de muito ainda por realizar.
6 de Janeiro de 2008
Festa da Epifania do Senhor
*Revdo. Silvio, teólogo, clérigo da Diocese Sul-Ocidental, anteiormente clérido de nossa Diocese

Dom Helder Câmara: profeta brasileiro

No próximo sábado, 7 de fevereiro de 2009, em comemoração ao Centenário de Dom Helder Câmara, o Profeta do Brasil,  haverá um ato público seguido de uma Missa Campal,  em frente à Igreja das Fronteiras, será lançado o Selo Especial em homenagem ao Dom e mais a inauguração de uma escultura em sua homenagem pelo Projeto Circuito dos Poetas realizado pela PMR.

 
Toda programação vai a começar a partir das 15h, do dia 7
 
Rua Henrique Dias, 278, Bairro da Boa Vista
Para mais informações: 55 81 32315341
 
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Maria Clara Lucchetti Bingemer*
Arcebispo vermelho, bispo comunista, santo, místico, poeta, profeta  – de tudo isso e muito mais foi chamado Dom Helder Câmara. Amigo de Paulo VI e do cardeal Eugenio Salles, inovador e criativo, ao mesmo tempo em que obediente e dócil  a Igreja Católica da qual era pastor, Dom Helder  é certamente uma figura impar do século que passou. 
Brasileiro ilustre, sem duvida, esse magro cearense que era fiel a Igreja e ao mesmo tempo dialogava com  mundo com toda a tranqüilidade e intimidade. Conhecido no Brasil e no exterior, admirado por uns e odiado por outros, Dom Helder em seu centenário de nascimento, celebrado neste ano, não deixa de instigar nossas consciências e provocar admiração.  Impossível não tomar posição diante de sua pessoa e sua vida.
Quando, em 20 de abril de 1952,  aquele frágil sacerdote nordestino foi nomeado bispo escolheu como lema do seu ministério episcopal “IN MANUS TUAS”. Provavelmente intuía, mas não sabia que era ao mesmo tempo uma profecia e um programa de vida.  As três palavras latinas queriam significar sua entrega confiante nas mãos de Deus, seu único Senhor.
Essa entrega levou-o longe pelos caminhos de um serviço criativo e profético ao povo de Deus, pelo qual pagou seu preço, mas que desempenhou alegre até o fim.
No dia 7 de fevereiro serão cem anos do nascimento de Dom Helder Câmara, cearense de Fortaleza e décimo primeiro filho de família simples, numerosa e bem constituída. Desde pequeno, brincava de padre, armando altares e oficiando missas em casa. Ao comunicar a seu pai, afastado da Igreja, seu desejo de abraçar a vocação sacerdotal, o jovem Helder ouviu palavras que nunca esqueceu: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar”.
A vida no seminário e os estudos do jovem Helder foram marcados pela firmeza vocacional e o brilho intelectual.  Ordenado aos 22 anos, antes da idade mínima requerida para tal e com licença especial da Santa Sé, Pe. Helder reuniu desde o principio qualidades raras em uma mesma pessoa: inteligência, cultura e liderança incontestáveis ao lado de um imenso amor e dedicação integral aos mais pobres.
Ao mesmo tempo em que organizava reuniões com lavadeiras e operarias e assessorava a Juventude Operaria Brasileira (JOC), escrevia artigos em revistas, planejava a catequese a nível estadual e assumia cargos públicos na secretaria de educação do Ceara.  A habilidade política  foi uma constante em sua vida, assim como a naturalidade que desde sempre teve frente aos meios de comunicação, sendo uma das primeiras personalidades eclesiásticas brasileiras a aparecer constantemente na televisão. Quem é da  minha geração certamente não esquecera sua figura de olhos vivos e penetrantes conclamando o país a solidariedade quando estourou o açude de Orós, causando situação de calamidade para a população nordestina.  Parece ouvir ainda sua voz de característico sotaque nordestino: Orós precisa de nós.
A sagração episcopal multiplicou à enésima potencia a personalidade fulgurante do nordestino magro e franzino, vestido com uma  eterna batina bege.  Sua criatividade e  capacidade de trabalho inventavam e implantavam sem cessar novas coisas  na Igreja do Brasil.  Deve-se a Dom Helder quase todas as iniciativas pioneiras em termos eclesiais que o país conheceu durante o século XX, entre elas a criação da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi fundador e secretário geral.
Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro onde era bispo auxiliar, criava  a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional situado no coração do Leblon, bairro mais chique da cidade.  Também se deve a sua iniciativa o Banco da Providencia, órgão que existe até os dias de hoje e que atende os pobres da diocese do Rio de Janeiro a vários níveis.
No plano internacional, Dom Helder não teve mãos a medir diante dos múltiplos convites que recebia e atendia.  Enchia auditórios e praças em Paris, Sidney, Londres, levando até o abastado primeiro mundo a quase sempre ignorada realidade sofrida e oprimida dos pobres brasileiros. Sua presença fez o país e a Igreja conhecidos e respeitados em outras latitudes.
A partir de 1964 o governo militar criou um rígido sistema de censura nos meios de comunicação brasileiros.  Pretendia assim calar as vozes daqueles que defendiam os direitos humanos e denunciavam a barbárie perpetrada pelas torturas nos porões da ditadura.  Dom Helder foi confinado a um penoso ostracismo. Sobre ele não se falava ou noticiava. Seu acesso à mídia fechou-se. Ele, perplexo com as acusações de comunista que lhe faziam, cunhou uma frase que ficou famosa: Quando ajudo os pobres dizem que sou santo. Quando pergunto sobre as causas da pobreza, me chamam de comunista.
Dom Helder foi reduzido a uma progressiva invisibilidade. Ficou praticamente  restrito à atuação intra-eclesial onde incansavelmente continuou trabalhando. Desde Recife, sua sede episcopal a partir de 1964, foi responsável por um dos mais bem sucedidos focos de resistência ao regime militar.
 
Homem universal, parece não existir um só campo de atividade que Dom Helder não tenha tocado, vivido, atuado.  Recebeu inúmeras homenagens e títulos pelo mundo afora:  de cidadão honorário, de “doutor honoris causa”.  Poeta e místico ardente, desde seu pequeno quarto no Recife levantava-se durante a madrugada para renovar seu lema de bispo: “In manus tuas”.  A entrega incondicional a Deus e a seu povo expressava-se em belos poemas e livros que receberam traduções em vários idiomas. Escreveu sobre a paz, a cidade e o desafio da pastoral urbana, sobre a justiça, sobre a Igreja que nascia das chamadas minoras abraamicas.  Organizou espetáculos no Maracanã sobre os sete pecados capitais, a paixão de Cristo.  Gravou discos onde declamava poemas em honra de Nossa Senhora- Mariama, na Missa dos Quilombos composta por Milton Nascimento e Dom Pedro Casaldaliga.
Nas incursões na calada da noite, olhando o céu do Recife coalhado de estrelas, sua alma se expandia em louvor e adoração.  Ali estava seu segredo.  Ali estava a força da marca indelével que deixou por onde passou. In manus tuas.  Nas mãos de seu Senhor, a alma do bispo descansava e cobrava forcas para um novo amanhecer. Hoje, celebrando cem anos de seu nascimento, o Brasil agradece,com o vido.  E invoca sua proteção para estes tempos tão diferentes e igualmente complexos.
 .
*Teóloga e professora

Primazes pedem ações imediatas no Zimbábue

Declaração dos Primazes da Comunhão Anglicana sobre o Zimbábue.


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Os primazes da Comunhão Anglicana, reunidos em Alexandria, no Egito, no dia 3 de fevereiro de 2009, ouviram relatórios em primeira mão da terrível e complicada situação da população da nação do Zimbábue. 

Nós damos graças a Deus pelo testemunho e trabalho dos cristãos do Zimbábue durante este período de dor e sofrimento, especialmente aqueles que estão sendo privados de terem acesso às Igrejas. Nós gostaríamos de reforçar o nosso amor, nosso suporte e nossas orações para estas pessoas que sofrem violações dos direitos humanos, fome, morte assim como sofrem de uma epidemia de cólera, tudo isso devido à conjuntura de deteriorização sócio-política e econômica no Zimbábue. 

É extremamente preocupante o fato de que as regras previstas em Lei estão sendo quebradas naquele país, e também que o processo democrático está sendo destruído, como pôde ser visto na violação das eleições democráticas de 31 de Março de 2008, para que o Sr. Robert Mugabe pudesse, ilegitimamente, permanecer no poder. Até mesmo a recente situação política de divisão do poder, mediada pela SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral), não foi duradoura e não foi o suficiente para dar fim ao regime de Mugabe. Há um total desrespeito pela vida, demonstrada pelos sistemáticos seqüestros, tortura e assassinatos da população, comandados por Mugabe. A economia do Zimbábue sofreu um colapso, o que fica claro pela enorme circulação de moedas estrangeiras no país.  

Portanto, nós pedimos ao Presidente Robert Mugabe que ele respeite o resultado das eleições de 2008 e se retire do poder. Nós pedimos que as leis sejam novamente obedecidas e que a democracia possa ser restaurada. 

Nós pedimos que o Arcebispo de Cantuária e o presidente do Conselho Anglicano das Províncias da África, em conjunto com a Província da África Central, mandem um representante para ir ao Zimbábue para exercer um ministério de solidariedade ao povo do Zimbábue. Nós também pedimos que o Presidente da Conferência das Igrejas da África e o presidente do Conselho Anglicano das Províncias da África, organizem uma reunião com o Presidente da União Africana e outras lideranças políticas da África (especialmente aquelas ligadas ao SADC) para levantar e discutir os pedidos e as lutas da população do Zimbábue. 

Nós pedimos para que as paróquias de toda a Comunhão Anglicana auxiliem o Escritório da Comunhão Anglicana, o Escritório do Arcebispo de Cantuária e o Observador Anglicano na ONU, enquanto eles tentam colaborar na administração desta crise humanitária da maneira que melhor lhes cabe como, por exemplo, pedindo que o Palácio de Lambeth facilite o processo de distribuição da comida e outros materiais para o Zimbábue através das dioceses da Província da África Central. 

Nós pedimos que as igrejas da Comunhão Anglicana justem-se à Igreja da África do Sul no dia 25 de Fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, para um dia de oração e solidariedade ao povo do Zimbábue.

Como representantes da Comunhão Anglicana, nós reiteramos que não reconhecemos o status dos Bispos Nolbert Kunonga e Elson Jakazi como bispos da Comunhão Anglicana e nós pedimos pela completa restauração da propriedade Anglicana no Zimbábue à Província da África Central. 

Nós admiramos a iniciativa da Diocese São Marcos Evangelista (ACSA) que, com a colaboração do Palácio de Lambeth, o Escritório da Comunhão Anglicana e a Província da África Central, criaram uma capelania na fronteira do Zimbábue com a África do Sul para atender os muitos refugiados. Pedimos, também, o apoio de toda a Comunhão Anglicana a este trabalho. 

 

Alexandria, 03 de fevereiro de 2009.

( Tradução: Thiago Correia de Andrade- DAB).

 

Resistência, conquistas e perspectivas afro-indígena e popular no FSM 2009

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Do dia 27 de janeiro a 1° de fevereiro, as Universidades Federal Rural da Amazônia (UFRA) e a Federal do Pará (UFPA), em Belém (Pará), serão as sedes dos debates em busca de um mundo melhor. Cerca de 85.500 pessoas, entre movimentos sociais, povos indígenas, grupos religiosos, sindicatos, organizações não-governamentais e ativistas de todo o mundo já estão inscritas na nona edição do Fórum Social Mundial (FSM).O FSM é um espaço que se caracteriza pela pluralidade e diversidade. Pretende articular, de forma descentralizada e em rede, movimentos sociais, organizações e ativistas do mundo inteiro pela construção de um mundo mais justo, democrático e sem o predomínio do capitalismo e de qualquer forma de imperialismo.

A edição deste ano do FSM acontecerá na Pan-Amazônia, região formada por Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa. Ela é conhecida pela biodiversidade, além de ser uma área preservada pelos aspectos naturais e de se destacar pela luta dos movimentos sociais, organizações não-governamentais, sindicatos e sociedade civil que lutam pela preservação da região e por uma Amazônia sustentável, democrática e solidária.Segundo Daltro Paiva, membro do Grupo Facilitador do Fórum e representante da Associação Brasileira de ONGs (Abong), há um forte apelo da Pan-Amazônia não só como espaço natural, mas também como um espaço de lutas sociais, econômicas e políticas.

A escolha do território Pan-Amazônico para sediar a nona edição do FSM foi realizada pelo Conselho Internacional do Fórum, que optou pela região em reconhecimento ao papel estratégico que a Pan-Amazônia possui para todo o mundo. O FSM 2009 Amazônia será guiado por três diretrizes estratégicas: ser efetivamente um espaço onde se constroem alianças que fortalecem propostas de ação e formulação de alternativas; ser hegemonizado pelas atividades autogestionadas e possuir um claro acento pan-amazônico.

Para dar mais visibilidade ao território Pan-Amazônico e voz aos povos que vivem na região, o segundo dia desta edição do FSM será inteiramente dedicado à temática pan-amazônica, com o tema: “500 anos de resistência, conquistas e perspectivas afro-indígena e popular”. Segundo Daltro, a idéia é que a Amazônia não seja apenas o cenário do Fórum, mas também uma protagonista. Para ele, a intenção é garantir visibilidade às lutas locais e criar um espaço de articulação entre os movimentos pan-amazônicos e os de outras regiões do mundo.

O Dia da Pan-Amazônia fará parte da quinta edição do Fórum Social Pan-Amazônico (FSPA) e será constituído de apresentação dos resultados dos Encontros Sem-Fronteira, programação cultural, confirmação e celebração de alianças  que serão realizados na  Casa da Pan-Amazônia, um espaço de encontros e convergências no interior do território do FSM. De acordo com Daltro, o Dia da Pan-Amazônia “será o momento de diálogo multicultural entre os povos da Amazônia e de outras regiões”. Ele explica que, nesse dia, haverá apresentações dos movimentos de diferentes regiões relatando as lutas e conquistas em busca de um mundo melhor.

Além das atividades destinadas ao Dia da Pan-Amazônia, o Fórum também contará com a Marcha de Abertura, que marca o início do FSM, as atividades autogestionadas, e o Dia de Alianças, que acontecerá no último dia com atividades descentralizadas e autogestionadas nas quais serão apresentados acordos e alianças construídas nos seis dias de Fórum.

Contato: (91) 3230.2285

Página do Forum:

http://www.fsm2009amazonia.org.br/

Página Adital

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=36901